O Governo Regional da Madeira não foi formalmente contactado pelo lorde britânico Piers Inskip, que reivindica a propriedade de um quadro do pintor Thomas Buttersworth, adquirido há quatro anos pelo Museu Quinta das Cruzes, revelou ao PÚBLICO uma fonte oficial.
Esta pintura tem como tema central o navio Dunira, pertencente à Companhia das Índias Orientais Inglesas, em passagem pela baía do Funchal. E foi arrematado num leilão da Christie's a 29 de Outubro de 2008, em Londres, por 61.250 libras (76 mil euros), um valor ligeiramente acima da estimativa-base de 60 mil libras. A sua propriedade é agora reclamada pelo filho do proprietário, alegando que este estava apenas emprestado à instituição que o vendeu, revelou um programa transmitido pela BBC na segunda-feira, citado pela Lusa.
Piers Inskip, visconde de Caldecote e membro da Câmara dos Lordes britânica, alega que a venda foi ilegal porque o quadro, propriedade do pai, Robert Inskip, foi apenas emprestado ao Museu do Império e da Commonwealth Britânico para integrar uma exposição sobre a herança colonial britânica. Foi após a morte do pai, em 1999, que a família se apercebeu que o quadro tinha sido cedido temporariamente, ao encontrar um documento de prova do empréstimo.
"Eu contactei o museu e perguntei se podia tê-lo de volta, mas infelizmente eles disseram que não, que o quadro tinha sido dado ao museu. Descobrimos posteriormente que tinha sido vendido pela Christie's em nome do museu", contou Piers Inskip ao programa Inside Out. O lorde atribui a responsabilidade do problema ao museu britânico, alegando que este "não tinha os processos adequados de verificação do espólio".
Foi através do autor da reportagem da BBC que o Governo madeirense tomou conhecimento do litígio que opõe a família Inskip ao museu inglês, acrescentou ao PÚBLICO a mesma fonte, frisando que a Madeira é "alheia ao processo de averiguações em curso". Segundo a reportagem, 144 objectos estão desaparecidos e alguns terão sido vendidos em circunstâncias controversas. O então director, apesar de ter sido questionado pela polícia, não foi processado judicialmente.O museu abriu em 2002, em Bristol, no Sudoeste de Inglaterra, para expor espólio sobre o passado colonialista britânico. Era o primeiro do género e incluía fotografias, esculturas, filmes, mas fechou em 2008.
Madeira importante nas rotas marítimas
O quadro, intitulado The Honourable East India Company's Ship Dunira Passing Funchal Bay, Island of Madeira, da escola inglesa, a óleo sobre tela (82x122 cm), é de 1830, data que coincide com uma das últimas viagens que o Dunira realizou com destino ao Oriente. A obra, encomendada a Thomas Buttersworth pelo capitão do navio, Montgomerie Hamilton, como forma de comemorar os 20 anos da sua carreira, "constitui um importante contributo para a compreensão e o estudo da iconografia da cidade do Funchal e para o entendimento das relações e da importância que a ilha da Madeira teve nas rotas marítimas, comerciais e de navegação do império colonial inglês", realça a directora do Museu Quinta das Cruzes, Teresa Pais, no catálogo da exposição Obras de Referência dos Museus da Madeira, que esteve patente no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, entre Novembro de 2009 e Fevereiro de 2010.
"Realçado por um céu raiado de suaves tonalidades de lilás e um mar relativamente agitado, o Dunira surge na sua grandeza, valorizado pela atmosfera, onde a luminosidade é habilmente conduzida para o navio. A composição é enriquecida pela representação de alguns detalhes, como, por exemplo, as figuras de marinheiros no cimo dos mastros, controlando e orientando as velas do navio. Em plano de fundo, podemos observar uma vista panorâmica, com uma perspectiva rara e invulgar, que abrange a totalidade da baía do Funchal e sua arquitectura", descreve Teresa Pais.
Se, por um lado, "é evidente o rigor topográfico, a preocupação de sinalização e identificação de alguns edifícios emblemáticos da cidade, como a Igreja do Monte, o Forte do Ilhéu ou o Pilar de Banger, por outro, o autor revela um sentido fantasista na representação imprecisa do casario, cuja localização é ajustada à composição geral do tema", acrescenta a directora do museu madeirense sobre a obra de Thomas Buttersworth (1768-1842), que, tal como outros pintores da escola inglesa do final do século XVIII, como Nicolas Pocock, Robert Dodd e Thomas Luny, destacou-se na representação de temas marítimos.
The Ship Ville de Paris Under Full Sail (1803), a sua única obra exposta na Royal Academy of Arts, em 1813, e a pintura Trafalgar at the End of the Action (1805), exibida no British Institution, em 1825, têm uma estrutura composicional e narrativa muito próxima à da obra existente no Museu Quinta das Cruzes, no Funchal.

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