A passagem dos 15 anos sobre o Acordo de Amizade e Cooperação Paris-Lisboa foi o pretexto para o programa que, durante o mês de Junho, no âmbito da iniciativa Chantiers d’Europe (Estaleiros da Europa), vai mostrar na capital francesa o estado da arte da sua congénere portuguesa. Vai haver teatro, dança, performance, música, cinema, vídeo, artes visuais e literatura, numa rede de três dezenas de eventos protagonizados por mais de meia centena de artistas e criadores, espalhados por 13 palcos e espaços parisienses.
“Sempre defendi a importância das ligações entre as cidades, mais do que entre os países, porque são elas os verdadeiros centros da criatividade, o futuro da cultura”, disse ao PÚBLICO Emmanuel Demarcy-Mota, o luso-descendente que é o actual director do Théâtre de la Ville (o teatro municipal parisiense, que inclui também o Théâtre des Abbesses) e principal responsável pela programação do evento.
A focagem, este ano, numa só cidade vem, pois, ao encontro da visão de Demarcy-Mota. Mas decorre também do “envolvimento político” dos presidentes das câmaras de Lisboa e de Paris. “António Costa sempre manifestou grande abertura e vontade de apoiar este projecto”, notou o director do Théâtre de la Ville (TdlV). Por sua vez, o maire parisiense, Bertrand Delanoë, num texto escrito para o programa, vê as duas cidades “unidas por uma comunidade espiritual e uma mesma procura de sentido nestes tempos em que dele precisamos mais do que nunca”.
Na apresentação do programa feita na tarde de quarta-feira na Câmara de Lisboa, o presidente António Costa – ladeado por Demarcy-Mota e pela vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto – disse, citado pela Lusa, que ele demonstra que Portugal tem “coisas para exportar para além do têxtil, do calçado, do tomate e do pastel de nata: é o conhecimento, as ideias, os projectos, a criatividade”. “É bom que possamos levar também a Paris aquilo que é a nossa produção cultural contemporânea. Se isso é bom para a Europa, é particularmente bom para os portugueses. Perceber que há públicos para lá das nossas fronteiras, que têm interesse em saber o que se passa em Portugal”, acrescentou o autarca.
Em declarações ao PÚBLICO, antes da conferência de imprensa, Catarina Vaz Pinto realçara que as relações da capital portuguesa com Paris têm um grande suporte histórico e “não se resumem aos últimos 15 anos do acordo”. E recordou o recente apoio que a capital francesa deu à candidatura do fado a Património da Humanidade. “É uma cidade muito especial, com uma cultura sempre muito presente na sociedade portuguesa”, acrescentou a vereadora, dizendo que Lisboa vai agora levar a Paris “a sua imagem mais nova de cidade de criação artística”.
Também ao PÚBLICO Demarcy-Mota assinalara a importância que o evento Chantiers d’Europe tem para que “Paris acolha outras culturas e perceba as suas diferenças”. “Nem tudo é igual em todo o lado” e, nestes tempos de crise em que muitos países, entre os quais Portugal, “estão a viver momentos de grande dureza, não se pode pensar que o futuro passa só pela economia; a cultura e a criatividade têm um grande papel a desempenhar na criação do futuro. E a grande vitalidade artística de Lisboa mostra que o futuro pertence às novas gerações”, defendeu o director artístico do TdlV.
Os novos criadores são, de facto, a base da programação de Lisboa-Paris, que, ao contrário do que aconteceu nas três edições anteriores de Chantiers d’Europe – dedicadas a Itália, Inglaterra e Grécia –, surge “mais alargada ao nível das disciplinas que envolve”, notou Demarcy-Mota.
Para este alargamento contribuiu também o envolvimento de outras instituições, como o Institut Français, a Fundação Gulbenkian e o Instituto Camões, o que permitiu a distribuição do programa no tempo e no mapa de Paris – ainda que principalmente centrado nos dois teatros municipais e na primeira quinzena de Junho, o calendário encerrará só no dia 29, com a Festa da Lusofonia, no Parc Montsouris. A sede parisiense da Gulbenkian, a Escola de Belas-Artes, o Palácio Tokio, o centro cultural Centquatre e o cinema MK2 Beabourg e as casas da Poesia e da Rádio serão outros palcos da iniciativa.
As artes de palcos concentram, contudo, e naturalmente, o grosso do programa. Nele surge em destaque a presença do Teatro Praga, a quem Demarcy-Mota deu “carta-branca”. A companhia criada em 1996 vai apresentar no TdlV (dias 7 a 9) duas produções já com alguns anos, Eurovision, um monólogo a duas vozes sobre a questão da identidade da Europa, e Discotheater, uma montagem de pequenas cenas teatrais em modo estaleiro. E também Old School, um programa concebido por Susana Pomba; e uma sessão de leitura, por quatro actores do TdlV, da peça de José Maria Vieira Mendes, Terceira Idade – que o Teatro Praga irá encenar e estrear em Outubro, no Teatro Viriato, em Viseu.
Pedro Penim, membro da companhia, assinala que este é um regresso a Paris, onde o Teatro Praga já esteve com as produções A Tempestade, Sonho de Uma Noite de Verão e Israel. “Paris não é uma cidade estranha para nós”, diz o actor, realçando, todavia, que o programa do Chantiers vai permitir mostrar “a profusão de actividades e a constelação de artistas” com que o grupo trabalha.
Ainda no teatro, Tiago Rodrigues leva Três Dedos Abaixo do Joelho, uma peça sobre o tema da censura sob o Estado Novo; Mónica Cale, a sua criação de strip-tease teatral a partir de Rimbaud, A Virgem Doida. E a Companhia Mala Voadora, What I Heard About the World, uma produção em parceria com os britânicos Third Angel, que faz o cruzamento do teatro com a live art, vídeo e fotografia, sempre em trânsito entre a ficção e a realidade.
Demarcy-Mota incluiu também no programa um momento de homenagem ao encenador Joaquim Benite, director do Festival de Teatro de Almada, falecido em Dezembro último. “Para além da relação pessoal de amizade que eu tinha com ele, é uma forma de homenagear o trabalho que Joaquim Benite fez no Festival de Almada, onde esteve sempre atento ao teatro que se faz em França, convidando sucessivamente companhias francesas”, justificou o programador.
Na dança estará em destaque o trabalho do colectivo Bomba Suicida, que mostrará quatro peças no Théâtre des Abbesses (dias 13 e 14): Guintche, The Recoil of Words, 3 Interludes et le Galop du Nez/ La Première Danse d’Urizen e Síncopa. Tânia Carvalho, intérprete de duas destas quatro peças, admite que “há sempre vantagens” na apresentação das criações da companhia num palco internacional. Mas não vai a Paris com “nenhuma expectativa especial”, até porque este fim-se-semana a sua criação Síncopa, baseada num texto de Valter Hugo Mãe, será apresentada na Plataforma de Artes Criativas de Montemor-o-Novo perante “80 programadores de todo o mundo”.
Ainda na dança, Joana Providência – referida no programa como “um dos nomes da nova dança portuguesa” – vai apresentar o espectáculo para a infância Catabrisa (dias 3 e 4, TdlV), com texto de Eugénio Roda e ilustrações e marionetas de Gémeo Luís (que apresentará também uma exposição de desenhos seus). E o duo Sofia Dias-Vítor Roriz leva Um Gesto Que não Passa de Uma Ameça (2011), peça também antestreada na Plataforma de Montemor-o-Novo e que “trabalha sobre a lógica da transformação das palavras”, que, libertando-se dos seus significados, se transformam “numa explosão de conteúdos”, disseram os autores ao PÚBLICO.
A presença deste duo em Paris é também um regresso, pois já este ano Sofia Dias e Vítor Roriz apresentaram, na Cidade Universitária, a coreografia Fora de Qualquer Presente. Apesar disso, os dois criadores confessam “algum nervosismo” relativamente à sua estreia no TdlV, “pela carga histórica do próprio teatro” e pelo confronto com “um público sempre muito exigente”.
Na música, o concerto que Carminho vai dar, no dia 5, na grande sala do TdlV, irá assinalar a abertura oficial do evento, na presença dos responsáveis autárquicos das duas cidades. A cantora vai previsivelmente interpretar temas dos seus dois discos, Fado (2009) e Alma (2012), “que atestam, para além da graciosidade dos seus traços, o talento desta jovem intérprete de viva sensibilidade”, como é referida no programa do Chantiers pelo crítico Jacques Erwan.
Duas outras presenças musicais femininas em Paris serão Mísia (dia 9, nos Paços do Concelho do 4º Bairro) e Lula Pena (dia 10, no teatro Le Monfort). Mísia irá apresentar o concerto Sentimental Duplex, que a própria definiu ao PÚBLICO como um gesto de homenagem às duas cidades onde tem passado grande parte da sua vida. “Eu canto as cidades de que gosto, com as suas canções e a sua cultura”, diz. Acompanhada ao piano pelo italiano Fabrizio Romano, Mísia vai cantar Genet, Piaf e Moustaki, mas também Pessoa, Amália e Carlos Paredes.
Jacques Erwan diz que Lula Pena “é uma cantora-poeta, mulher misteriosa que se esconde atrás da sua guitarra para melhor nos surpreender”. E lembra que a sua voz já foi definida como estando “algures entre Tom Waits e Leonard Cohen, mas no feminino”.
O cinema e o vídeo vão chegar a Paris através de uma selecção realizada por António Câmara Manuel (director do festival Fuso), em colaboração com o centro cultural Centquatre. Ao longo das duas primeiras semanas, entre este espaço, o cinema MK2 Beaubourg e o TdlV, serão exibidas as longas-metragens Filme do Desassossego, de João Botelho; Alice, de Marco Martins; Aquele Querido Mês de Agosto e Tabu, de Miguel Gomes; O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira; A Última Vez Que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata; e as curtas de João Salaviza, Arena e Rafa.
O programador fez também uma selecção de vídeo-arte a partir da selecção do festival Fuso e “centrado no tema do estúdio/atelier como espaço de trabalho e de criação”. Passarão obras de autores consagrados, como Helena Almeida ou João Onofre, ou de jovens autores, como Nuno Lacerda e Bruno Ramos (Prémio EDP no Fuso 2012, com o vídeo Factory).
O programa do Chantiers d’Europe inclui ainda sessões de leitura de textos de António Lobo Antunes (dia 6, Abbesses) e das peças Império, de André Murraças (dia 12, TdlV), e Sagrada Família, de Jacinto Lucas Pires (dia 16, Casa da Rádio). E uma jornada Ao Encontro de Fernando Pessoa (dia 15, Casa da Poesia), um “concerto literário” por Christian Olivier e a sua banda Têtes Raides.
Haverá também performances (dias 13 e 14, Palais de Tokio) dos colectivos A Kills B e Musa Paradisíaca e de Ricardo Jacinto, Joana Bastos, António Olaio e Francisco Tropa. E de Susana Mendes Silva e Pedro Barateiro (dias 5 e 11, Escola de Belas-Artes).
Nas artes plásticas, o destaque vai para a exposição que, desde Abril, se encontra patente na Fundação Gulbenkian, Langages: Entre le dire et le faire, e que foi especificamente pensada para o contexto da fundação em Paris. “Era fundamental que a exposição abrisse as portas da Gulbenkian a artistas internacionais, a artistas franceses, que trouxesse o meio artístico francês à fundação. A arte portuguesa tem de ser integrada numa discussão internacional”, disse ao Ípsilon (edição de 3/5/2013) a comissária da exposição, Filipa Oliveira.
Depois do Verão, será a vez de Lisboa acolher uma programação sobre Paris, com o Festival de Outono, que incluirá, entre outros, a estreia mundial, em Setembro, de um espetáculo do Théâtre du Soleil, com a actriz Ariane Mnouchkine, uma exposição de fotografia e a Festa do Cinema Francês.

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