Opinião

Kendrick e a salvação do hip hop

No hip hop, o underground e o mainstream não só andam de mãos dadas como namoram em segredo. Dei de caras com essa frase em Luanda, quando o músico Keita Mayanda me explicava a escolha do título do documentário que estava a desenvolver juntamente com o realizador Mário Bastos. Segundo ele, o hip hop, por ser um género muito jovem, é consumido essencialmente por adolescentes e um grupo pequeno de graúdos de espírito jovem que não recusam o título de old school.

Muitos ainda carregam as suas baggy pants com orgulho e os seus Adidas imaculadamente limpos. Símbolos de uma cultura urbana que se estende por várias linguagens artísticas, das quais identificamos imediatamente a dança (breakdance), as artes plásticas (grafitti) e claro a música, que é, até certa medida, encarada por muitos como a salvação da indústria pop. Eu, por ser fruto desse fenómeno cultural que nasceu no seio da comunidade negra do Bronx, em Nova Iorque, nos idos de 1978, não poderia estar mais de acordo.
 
Não preciso de elaborar grandes teses sociais, tal qual o Rui Miguel Abreu, para sustentar a minha argumentação. Basta-me visitar o barómetro dessas coisas da pop: a tabela de vendas da Billboard e contar quantos discos de rap ou influenciados por este género se encontram no top 10. Isto num país onde a pop tem um significando ímpar e que ultrapassa a nossa compreensão. Excluo deliberadamente outras regiões que não os Estados Unidos, entre as quais Portugal e nosso querido Top+, pela simples razão, e parafraseando o inequívoco Sam The Kid — que Portugal, como muito países europeus “não entende o hip hop”. Então, temos entre os 10 primeiros lugares do genérico Billboard 200 esta semana os álbuns: Good kid, m.A.A.d City do rapper Kendrick Lamar na 2.ª posição, e Two Eleven da cantora Brandy, na 10.ª posição, depois de ter estado na 3.ª posição na semana passada. Para mim, esse factor é relevante porque, tal como o rock já foi considerado “música do diabo” no passado, e hoje domina a venda de música, assisto com especial satisfação à predominância que a cultura hip hop tem hoje no chamado mainstream.
 
Claro que como em todas evoluções há sempre algo que se perde: o rap já não é o que era, mas também, a bem da verdade, o público já não é o que era. Sendo este género demasiado novo, é muito comum o surgir de equívocos e dúvidas sobre a genuinidade e integridade artística dos seus intervenientes. “Sell-out” (vendido) é o adjectivo mais aplicado aos artistas que por algum milagre ou refrão orelhudo conseguiram sobreviver à violência das ruas americanas e escalar até às posições cimeiras nas tabelas de venda. E é exactamente por isso, pela relação conflituosa entre a música e o comércio, que artistas como Kendrick Lamar se tornam relevantes, para nos lembrar que é do fruto desse namoro entre o underground e o mainstream que está a salvação do nosso tão estimado hip hop.
 
 

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues