IndieLisboa: o ano do cinema português

Fantasia Lusitana, de João Canijo, é um dos cinco filmes da competição nacional DR

Diz Rui Pereira, um dos directores/programadores do IndieLisboa, que, a resumir em duas palavras a 7ª edição do IndieLisboa, que se realiza de 22 de Abril a 2 de Maio e que hoje apresenta a sua programação em conferência de imprensa, no Café Magnólia da Avenida de Miguel Bombarda, elas seriam: "Cinema português."

Isto é, "à excepção da edição de 2006, em que um dos heróis independentes foi o realizador Edgar Pêra, este é o ano com mais cinema português" no festival, espalhado pelas várias secções, competitivas e não competitivas.

Então e a crise? "Provavelmente só se vai sentir na próxima edição, porque estes filmes já estavam em produção. Mas diria que, e é isso que esperamos que continue a acontecer, houve mais produtores e realizadores portugueses a apostarem no Indie como primeira oportunidade para os seus filmes", diz ao P2 Rui Pereira. Exemplifica para se perceber onde quer chegar: a Palma de Ouro de Cannes para a curta-metragem, o ano passado, foi para um filme português, Arena, de João Salaviza, que tinha sido exibido primeiro, e premiado, no Indie. Portanto, estrear no Indie não é cortar as possibilidades dos filmes noutros festivais internacionais.

Não é apenas questão de quantidade. O festival teve uma oferta que "permitiu fazer as melhores opções" em termos de títulos e de secções. "Há óptimos filmes portugueses em todas as secções", diz.

Portugal de 40

Há cinco filmes na competição nacional: Fantasia Lusitana, de João Canijo (olhar sobre o Portugal dos anos 40 a partir de material de arquivo), Pelas Sombras, de Catarina Mourão (documentário sobre a artista plástica Lourdes Castro), Traces of a Diary, de Marco Martins e André Príncipe, Sem Companhia Além do Medo, de João Trabulo (rodado numa prisão masculina em Penafiel), e Guerra Civil, de Pedro Caldas, que também concorre na competição internacional. E há 14 curtas no concurso nacional, filmes de Gabriel Abrantes, Ivo Ferreira, Gonçalo Waddington (também na competição internacional de curtas), Sandro Aguilar ou João Figueiras.

Na secção Pulsar do Mundo, que teve a sua edição zero o ano passado e que este ano passa a ser competitiva ("documentários sobre a actualidade, mas gestos cinematográficos, não se resumem a filmes com tema", diz outro dos directores, Nuno Sena), os portugueses são Ilha da Cova da Moura, de Rui Simões ("a normalidade da vida num bairro difícil"), e Tarrafal: Memórias do Campo da Morte Lenta, de Diana Andringa.

Em Sessões Especiais: A Cidade dos Mortos, o documentário que Sérgio Tréfaut filmou no Cairo, As Horas do Douro, de Joana Pontes e António Barreto, Como Desenhar um Círculo Perfeito, outro filme de Marco Martins (desta feita, a sua longa de ficção, que terá no festival a sua antestreia), e Há Tourada na Aldeia, de Pedro Sena Nunes.

No IndieMusic, Tiago Pereira questiona o lugar da tradição na música portuguesa (B Fachada: Tradição Oral Contemporânea e Significado - A Música Portuguesa se Gostasse Dela Própria) e podemos ver, entre outros filmes, uma série de entrevistas/concertos/retratos a partir do palco do MusicBox,com X-Wife, JP Simões, Dealema, entre outros.

Internacional

E há o resto, que é muito e não é o que sobra: é toda a parte internacional do festival, e é toda uma estrutura "que se vai estabilizando".

Doze filmes em competição internacional, de Go Get Some Rosemary, dos americanos Josh e Benny Safdie ou do argentino Castro, de Alejo Moguillansky, até ao croata The Blacks, de Zvonimir Juric e Goran Devic. O Pulsar do Mundo, a tal secção de documentários sobre a actualidade, falar-nos-á de Berlusconi, da imigração, da China e do Capitalismo ou da adopção por casais gay - títulos como Videocracy, de Erik Gandini, Les Arrivants, de Claudine Bories e Patrice Chagnard, Once upon a Time a Proletarian, de Xiaolu Guo, ou Google Baby, de Zippi Brand Frank.

No Observatório estão alguns notáveis: Werner Herzog duas vezes, fazendo um (falso) remake do Bad Lieutenant de Ferrara - The Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans - e fazendo-se passar também por David Lynch em My Son My Son What Have You Done?; o próprio Ferrara, com um documentário sobre uma cidade, Napoli, Napoli, Napoli; Ruhr, de James Bening; Tales From The Golden Age, mais notícias do cinema romeno; Orly, de Angela Schanelec, ou personagens e um aeroporto; Mother, do coreano Bong Joon-Ho; Greenberg, de Noah Baumbach; Tsai Ming-liang e Visage.

No Cinema Emergente, veremos o Leão de Ouro de Veneza, Lebanon, de Samuel Maoz, Humpday, de Lynn Shelton (ou quando dois amigos, heterossexuais, resolvem entrar num porno gay), Lourdes, de Jessica Hausner (olhar "tatiano" sobre o santuário das aparições), ou J"ai Tué Ma Mère, de Xavier Dolan, um ex-child actor que tem hoje 21 anos e que se estreou na realização sob o signo da autobiografia e da provocação.

Na secção IndieMusic ouviremos Leonard Cohen, The Magnetic Fields, os Doors, Ricardo Villalobos ou, em All Tomorrow"s Parties, de Jonathan Tarnation Caouette, Animal Collective, The Gossip, Grizzly Bear, Nick Cave, Portishead ou Sonic Youth.

Como já tinha sido anunciado, os Heróis Independentes desta edição são o Fórum de Berlim, secção alternativa do Festival de Berlim, com selecção de quatro décadas de programação, e a documentarista Heddy Honnigman.

Rui Pereira conclui, neste voo sobre o Indie, realçando "o dobro do valor dos prémios" em relação ao ano passado. O maior salto é o prémio à distribuição dado pelo júri a um filme da competição internacional. De 2500 euros passa, com patrocinador, a dez mil, entregues a um distribuidor que estreie em sala o filme. A ver se o balanço se torna positivo - em três anos, só um filme, Pas Douce, de Jeanne Waltz, estreou nas salas portuguesas.

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