Opinião

Estações do ano

 

A Estação de Santa Apolónia com todos os comboios imobilizados foi talvez a imagem mais sinistra que vivi este ano passado. Diz-se que a qualidade de um país se mede pela qualidade dos seus comboios. Eu viajo Porto-Coimbra-Lisboa como um peregrino, conheço-os pelo cheiro, pela cor e pela clientela. Viajo na direcção da viagem, de preferência. Na Estação de Vila Nova de Gaia aconteceu algo extraordinário: do dia para a noite deitaram abaixo o edifício e construíram um igual, ligeiramente maior. Nos meios académicos esta técnica é conhecida como "reabilitação por empreitada nocturna". Em Coimbra B está lá ainda o edifício, ligeiramente do mesmo tamanho, com melhoramentos aristocráticos: a tasca foi preservada também em nome da integração na envolvente; as portas de correr automáticas demoram uma eternidade a abrir enquanto troça ao mundo high-tech; no conjunto é uma lição, de sonho e tradição. Como a cidade que serve, a Estação recusa ser A, bloqueou no B mas não teme ser C. Significativamente, Aveiro tem a mais cuidada das estruturas modernizadas, em simetria com a pitoresca Estação de Vila Franca de Xira.

Do muito dinheiro gasto na renovação da ferrovia, pouco reverteu para a requalificação das Estações, que tradicionalmente desempenhavam um papel importante nas cidades. A excepção é a Gare do Oriente, onde o frio e o vento são inclementes, e a arquitectura desorienta-nos quando queremos apenas comprar um bilhete. Uma punição premonitória das nossas veleidades modernizadoras. Chegamos a Santa Apolónia com o cheiro do fabrico de pão, um reconforto particular. Para trás fica a magnífica Estação de S. Bento, quem sabe o que lhe acontecerá; e o trágico desinvestimento nas linhas do Douro.

A primeira classe do Intercidades parece muitas vezes um clube da CP: funcionários e afins convivem até à Pampilhosa, convergem no Entroncamento, combinam as próximas greves. Na primeira classe do Alfa Pendular, em contrapartida, as revistas Caras e VIP desaparecem rapidamente. A primeira classe do Intercidades representa o triunfo do socialismo; a do Alfa é um bastião do capital na sua figuração cor-de-rosa.

O final do ano passado ficou marcado por greves que se tornaram rotineiras e precisas: nos dias simbólicos há greves, nos outros também pode haver. São as "greves dos maquinistas", um quadro que parece saído do construtivismo russo para nos atormentar. Quem são estes "maquinistas", afinal, e não se pode mudar de software?

Os comboios e as Estações contam a história exacta do nosso país. Percebi que estávamos a mudar de "paradigma" e até, de geografia, quando, há uns meses, nos mandaram entrar para o comboio que chegava porque o outro não vinha. Partiríamos então sobrelotados na direcção da Índia. A troika estava lá, a tirar apontamentos.

 

Esta crónica foi publicada na revista 2 a 6 de Janeiro de 2013

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