A Estalajadeira
de Goldoni
encenação de Jorge Silva Melo
pelos Artistas Unidos
Almada, Teatro Municipal Joaquim Benite, 5 de Abril, às 21h30
Quatro estrelas
No ano passado Jorge Silva Melo encenou enfim de A Morte de Danton de Büchner, obra “pressentida” ao longo do seu trabalho teatral desde que em 1978 houve a apresentação no Teatro da Cornucópia de Woyzeck do mesmo Büchner e da sua primeira longa-metragem, Passagem ou A Meio Caminho, de 1980, ser também baseado em textos daquele.Agora, com os Artistas Unidos apresenta A Estalajadeira de Goldoni, que em 1974 devia ter sido o segundo espectáculo da Cornucópia, com Glicínia Quartin na protagonista, Mirandolina.
Porque Glícinia acabou por não querer o papel nesse momento, Silva Melo fez então um espectáculo Marivaux, numa “passagem” com todo o sentido não só porque os dois autores foram contemporâneos mas também porque na Estalajadeira há um jogo de fingimentos, amores trocados, enganos e desenganos próximos do teatro do outro, e que em francês ficaram mesmo cunhados com o nome de marivaudage.
Não tem cabimento, dadas as enormes diferenças de idade e temperamento entre Glicínia e Catarina Wallenstein, e porque um projecto não se concretizou e este agora sim, estar a estabelecer hipotéticas comparações. Mas se o presente espectáculo resulta do encontro entre o encenador e uma actriz curiosa de interpretar a personagem de Mirandolina, também não se pode dizer que a peça de Goldoni tenha ficado esquecida e seja agora retomada em mera consequência de uma casualidade, pois que ao longo de décadas Silva Melo frequentemente referiu o exemplo da Estalajadeira, de retomar o gesto de Goldoni e ousar pôr em cena a contemporaneidade.
Acabar com as máscaras da commedia dell’arte e o canovaccio, guião sobre o qual os actores improvisavam, e em vez disso escrever todo o texto e pôr em cena personagens vindas do quotidiano, foram algumas das razões porque a Estalajadeira se tornou, logo desde a estreia em 1752, numa das obras mais marcantes da história do teatro europeu.
Mirandolina não é propriamente uma jovem mas uma mulher de experiência feita, e essa caracterização – “Eu não sou uma rapariga, tenho já uns aninhos” diz – é o risco maior de ter uma actriz com a juventude de Catarina Wallenstein. Faltam-lhe as artimanhas e os manejos da patroa da estalagem e o domínio dos jogos de sedução e, do mesmo modo, é pouco assertiva no discurso final. Mas esta Mirandolina é ainda assim uma rapariga segura dos seus encantos femininos, feminista mesmo – “A mim ninguém me deu ordens” e disso não duvidamos.
O risco da possível fragilidade de Wallenstein dilui-se também porque com ela contracenam dois jovens e formidáveis actores, revelações maiores nos últimos anos, Elmano Sancho e Rúben Gomes, respectivamente o Cavaleiro que não suporta mulheres mas que se apaixona perdidamente por Mirandolina e o criado que finalmente a patroa decide desposar. Com eles o jogo dos equívocos, afastando-se da concepção mais habitual da Estalajadeira, com esta mais velha e os jovens pretendentes, mais se diria uma comédia sofisticada, como nos filmes de Lubitsch.
Sancho é um actor espantoso e fica memorável o seu solo em Herodíades de Giovanni Testori. E é um jeune premier, sensível, sedutor e sofredor, como há muito não havia no teatro em Portugal. Há nele algo de um Gérard Philippe, como o conhecemos de alguns filmes ou das fotografias feitas por Agnès Varda das encenações de Jean Vilar. E seguindo os passos daquele imaginamo-lo a interpretar peças ou adaptações de românticos, como Stendhal, Kleist, Musset, mas também um texto tão abissal (porque se entrevê uma mente torturada sob a beleza dos seus traços) como Le Diable au corps de Raymond Radiguet. Para ele interpretar o infortunado Cavaleiro Des Grieux, escreveu Silva Melo um texto a partir da Manon do Abade Prévost, ainda outro autor contemporâneo de Goldoni, a estrear em Julho. E já agora pode-se imaginá-lo como o apaixonado e desgraçadoWerther, a partir de Goethe.
Rúben Gomes tem um bem mais pequeno papel mas crucial, e o seu jogo gestual e vocal quando Mirandolina lhe propõe casamento é de uma inteligência rara.
Assinaláveis, sobretudo logo na entrada em cena, são também as duas actrizes fingindo-se de aristocratas, Maria João Falcão e Maria João Pinho, e aludindo a elas, e a essa cena em especial, não se pode deixar de referir o trabalho de cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves, em que as suas reconhecíveis características de geometrismo e um tendencial monocromatismo são muito mais matizadas, sendo fulcral um aspecto concreto, que se diria a atemporalidade da comédia pela diversificação das referências históricas nos trajes.
Para além do relevo do facto de Silva Melo, quando já nem ele próprio esperaria, ter enfim encenado A Estalajadeira, não deixa de ser assinalável, sabendo-se que as companhias teatrais no tempo de Goldoni eram essencialmente itinerantes, que ele seja agora apresentado pela companhia que mais intensa itinerância faz em Portugal.
Mas sobretudo no princípio e no fim há o prazer de ver um tal jogo de actores, mesmo com fragilidades.
Próximos espectáculos: Lisboa, Centro Cultural de Belém: 26, 27, 29 e 30 Abril, às 21h; 28 Abril às 16h. 2, 3 e 4 Mai às 21h.

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