Hoje, devemos estar todos engajados num único propósito, celebrar o final de 2012 e receber de braços abertos o ano que se segue, 2013, entrando com o pé direito, de preferência, com amigos, uma taça de champanhe, 12 passas, um desejo e um beijo, isso se tivermos lábios amados à disposição. Tudo isto num ritual que se repete ano após ano. Não discutimos, aceitamos a vontade da tribo e embarcamos, contando aqueles últimos segundos que os canais de televisão nos servem antes do fogo-de-artifício numa localidade distante onde todos os rostos irradiam felicidade.
Não faz oito dias que durante o jantar de Natal, com amigos, na serra de Monchique, um lugar lindíssimo que nos últimos anos tenho vindo a visitar com bastante frequência, para partilhar afectos longe da azáfama citadina na qual vivo completamente absorvido, viciado até, dado que escolhi viver onde a cidade se manifesta mais ruidosa. Em ocasiões como o nascimento de Cristo, quando não estou na minha Benguela umbilical, é para o Sul que me dirijo. Quase que poderia afirmar que estávamos no meio do nada, as paredes que nos envolviam eram de sienito, o chão de ladrilhos terracota, a lareira acesa queimava os troncos de azinheira colhidos do matagal que circunda a casa. Uma casa de campo com todos os predicados, portanto. À mesa, discutíamos sobre a ausência da árvore de Natal na sala, sobre os planos para a passagem do ano que se seguiriam e o porquê de sermos avessos a rituais colectivos, sejam eles de que espécie forem.
Lamentavelmente, faço parte dessa estranha espécie de seres que preferem ficar à espreita, observando como o mundo à nossa volta se comporta, mas, ao invés de ficarmos num canto a olhar de fora, colocamo-nos no centro da acção lúcidos, atentos, catalogando, recolhendo de forma quase predatória comportamentos humanos para fins ficcionais. Sim, tudo o que testemunhamos é matéria para ficção (defeitos de ofício). Lamento fazer parte dessa espécie porque para nos distanciarmos do objecto observado, para evitarmos o julgamento, aceitamos que tudo será filtrado pela lupa do sarcasmo. Num misto de desdém e curiosidade por aquilo que julgamos saber como funciona, mas ao qual dedicamos atenção, seja como instigadores, articulando com mestria os códigos sociais que nos são impostos, ou ainda como meros observadores, aceitando uma passividade blasé que nos é tão assustadoramente confortável.
Que significado damos ao ritual de celebrar determinado acontecimento? Será que o facto de termos ao nosso dispor cada vez mais escolhas nos condiciona e, sem muito pensar, procuramos apenas divertir-nos? E, pescando aqui as palavras de Abraham Joshua Heschel, a celebração é um estado activo, um acto de expressar reverência ou agradecimento, a celebração é um confronto, dando atenção para o significado transcendente das acções de cada um - um feliz 2013!
Esta crónica foi publicada na revista 2 a 30 de Dezembro de 2012

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