Corelli vs. Pereira da Costa
"Flores de Musica"
Palácio Anjos, Algés
2 Dez, 16h
Sala cheia
4 estrelas
Thaïs, de Jules Massenet
Orquestra Sinfónica Portuguesa e Coro do TNSC
Teatro Nacional de São Carlos
5 Dez, 20 h (repete dias 7 e 9)
Meia-sala
4 estrelas
É possível que música instrumental publicada em 1714 e 1747 esteja tão distante, ou tão próxima, da sensibilidade actual como uma ópera estreada em 1894. Em ambos os casos, trata-se de repertórios pouco frequentados, mas deliciosos. No caso de Arcangello Corelli (1653-1713), a sua música foi influente em toda a Europa, chegando à Madeira, onde o mestre de capela da Sé do Funchal, António Pereira da Costa (c. 1697-1770), decidiu homenagear os seus 12 concerti grossi compondo um conjunto análogo, que um mecenas local fez imprimir em Londres em 1747. Infelizmente, esta publicação, feita à distância, foi tão descuidada que só o paciente trabalho crítico do cravista João Paulo Janeiro tem conseguido recuperar, pouco a pouco, a excelente música aí contida. No concerto do agrupamento Flores de Música realizado no âmbito da V Temporada de Música Antiga de Oeiras, fomos surpreendidos pela originalidade dos dois andamentos intermédios do concerto grosso op. 1 n.º 6 e dos Allegros do op. 1 n.º 7, concerto dado em primeira audição moderna; a qualidade dos instrumentistas foi notória, mormente no denso contraponto entre violinos solistas no início desta última obra. A elevada competência na execução de instrumentos barrocos, conjugada com uma rara atenção ao património musical português, faz dos Flores de Música um projecto especialmente estimulante e consequente.
Alguns dias depois, pudemos presenciar o regresso a São Carlos de uma ópera de Massenet (1842-1912), Thaïs, que narra o cruzamento fatídico entre um monge carismático e de temperamento talibânico (Athanaël, desempenhado por Ashley Holland) e uma sacerdotisa de Vénus de costumes libertinos (Thaïs, personificada por Anne Sophie Duprels). O primeiro leva a segunda a assumir uma culpabilidade penitente, mas acaba por experimentar por ela um amor tragicamente concreto. Massenet trabalha o libreto, preciso e compacto, com mão de mestre, produzindo música dramaticamente sugestiva e ricamente orquestrada. A ópera merece uma produção completa, mas o TNSC limitou-se (por razões orçamentais) a apresentar uma versão de concerto, que equivale a mostrar ao público um grande fresco, retirando-lhe toda a cor. Ainda assim, a escolha do elenco de solistas e o bom trabalho dos músicos, dirigidos de forma competente por Martin André, permitiu dar dignidade a esta opção. Dos solistas destacam-se as óptimas prestações da soprano Anne Sophie Drupels no exigente papel titular e do tenor Jeffrey Lloyd Roberts enquanto Nicias (amante de Thaïs), ambos seguríssimos, penetrantes e expressivos. O barítono Ashley Holland destaca-se pela voz possante e bem timbrada, pecando às vezes por alargamento excessivo do vibrato. Os papéis de apoio foram satisfatoriamente distribuídos por cantores portugueses. O coro esteve impecável; a orquestra teve um desempenho geralmente convincente, embora o concertino de serviço tenha sido inesperadamente baço e desinspirado no célebre solo da "Méditation".

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