Crítica de música: Clássicos deliciosos

É possível que música instrumental publicada em 1714 e 1747 esteja tão distante, ou tão próxima, da sensibilidade actual como uma ópera estreada em 1894.

São Carlos recebeu Thaïs David Clifford

Corelli vs. Pereira da Costa
"Flores de Musica"
Palácio Anjos, Algés
2 Dez, 16h
Sala cheia
4 estrelas

Thaïs, de Jules Massenet
Orquestra Sinfónica Portuguesa e Coro do TNSC
Teatro Nacional de São Carlos
5 Dez, 20 h (repete dias 7 e 9)
Meia-sala
4 estrelas

É possível que música instrumental publicada em 1714 e 1747 esteja tão distante, ou tão próxima, da sensibilidade actual como uma ópera estreada em 1894. Em ambos os casos, trata-se de repertórios pouco frequentados, mas deliciosos. No caso de Arcangello Corelli (1653-1713), a sua música foi influente em toda a Europa, chegando à Madeira, onde o mestre de capela da Sé do Funchal, António Pereira da Costa (c. 1697-1770), decidiu homenagear os seus 12 concerti grossi compondo um conjunto análogo, que um mecenas local fez imprimir em Londres em 1747. Infelizmente, esta publicação, feita à distância, foi tão descuidada que só o paciente trabalho crítico do cravista João Paulo Janeiro tem conseguido recuperar, pouco a pouco, a excelente música aí contida. No concerto do agrupamento Flores de Música realizado no âmbito da V Temporada de Música Antiga de Oeiras, fomos surpreendidos pela originalidade dos dois andamentos intermédios do concerto grosso op. 1 n.º 6 e dos Allegros do op. 1 n.º 7, concerto dado em primeira audição moderna; a qualidade dos instrumentistas foi notória, mormente no denso contraponto entre violinos solistas no início desta última obra. A elevada competência na execução de instrumentos barrocos, conjugada com uma rara atenção ao património musical português, faz dos Flores de Música um projecto especialmente estimulante e consequente.

Alguns dias depois, pudemos presenciar o regresso a São Carlos de uma ópera de Massenet (1842-1912), Thaïs, que narra o cruzamento fatídico entre um monge carismático e de temperamento talibânico (Athanaël, desempenhado por Ashley Holland) e uma sacerdotisa de Vénus de costumes libertinos (Thaïs, personificada por Anne Sophie Duprels). O primeiro leva a segunda a assumir uma culpabilidade penitente, mas acaba por experimentar por ela um amor tragicamente concreto. Massenet trabalha o libreto, preciso e compacto, com mão de mestre, produzindo música dramaticamente sugestiva e ricamente orquestrada. A ópera merece uma produção completa, mas o TNSC limitou-se (por razões orçamentais) a apresentar uma versão de concerto, que equivale a mostrar ao público um grande fresco, retirando-lhe toda a cor. Ainda assim, a escolha do elenco de solistas e o bom trabalho dos músicos, dirigidos de forma competente por Martin André, permitiu dar dignidade a esta opção. Dos solistas destacam-se as óptimas prestações da soprano Anne Sophie Drupels no exigente papel titular e do tenor Jeffrey Lloyd Roberts enquanto Nicias (amante de Thaïs), ambos seguríssimos, penetrantes e expressivos. O barítono Ashley Holland destaca-se pela voz possante e bem timbrada, pecando às vezes por alargamento excessivo do vibrato. Os papéis de apoio foram satisfatoriamente distribuídos por cantores portugueses. O coro esteve impecável; a orquestra teve um desempenho geralmente convincente, embora o concertino de serviço tenha sido inesperadamente baço e desinspirado no célebre solo da "Méditation".
 
 

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