Parece que todas as críticas que rodearam o concerto em Portugal de Sizzla caíram em saco roto. O cantor jamaicano, acusado de incitar o ódio e a homofobia, vai mesmo actuar a 5 de Abril em Lisboa, não na Sala TMN ao Vivo (Armazém F), como estava inicialmente previsto, mas no Coliseu dos Recreios.
"Nós sabemos é que a TMN é que não quis o concerto. O Armazém F é submisso à TMN", sublinha Luís Ribeiro, da promotora Jah Live. "A TMN não quis associar-se à polémica. Tentamos de tudo. Um acordo, juntar as associações LGBT...", conclui. O PÚBLICO tentou, sem sucesso, obter uma reacção da TMN sobre este caso.
Já a 1 de Abril, a promotora assegurara que o concerto não estava cancelado, apesar de várias notícias nesse sentido. Dizendo-se reger pela "liberdade de expressão", a promotora sublinhou que não partilha do "dogma homofóbico atribuído ao cantor", que, aliás, já "deixou de proferir" discursos desse género.
"O cantor não tem qualquer discurso homofóbico ao vivo. Nunca ninguém o conseguiu provar", ressalva o Luís Ribeiro, que não receia qualquer tipo de repercussões por parte das associações LGBT. As negociações com "uma das salas mais conceituadas do país" foram "normais", aliás.
Onda de indignação
A semana passada, na sequência de uma onda de indignação nas redes sociais, uma série de associações e colectivos LGBT emitiu um comunicado a exigir o cancelamento do espectáculo pela Jah Live. "(...) Só assim esta cumprir esta empresa cumprirá a Constituição da República Portuguesa, nomeadamente o seu 13º artigo, e dará um sinal claro de que não compactua nem promove a discriminação com base na orientação sexual nem o incitamento ao ódio", conclui o documento.
A TMN, que se tem afastado da polémica, afirmando não ser responsável pela programação da sala a que deu o nome, também não fica alheia às críticas. "Ao ceder o nome da marca para qualquer evento é conivente com o mesmo", acusam os signatários.
Foi também lançada uma petição e criado um evento no Facebook, com mais de mil adesões, que apela ao envio de e-mails à promotora e à TMN a exigir o cancelamento da actuação.
Quem é Sizzla?
Com 35 anos, Miguel Orlando Collins, isto é, Sizzla, é visto como uma referência da cultura rastafari e do reggae moderno. No entanto, já há alguns anos que a sua música tem estado associada à violência contra homossexuais. Em "Get To Da Point", por exemplo, diz: "Sodomite and batty bwai mi seh a death fi dem" ("Sodomitas e maricas, eu digo: que morram"); "Fire fi di man dem weh go ride man behind" (Queima os homens que têm sexo com outros homens por detrás"), declara, em "Pump Up".
Com um novo álbum na bagagem ("The Chant"), o cantor tem visto vários dos seus concertos serem canceladas ou adiadas. Estocolmo, Madrid, Barcelona e Valência são algumas das cidades que já o fizeram, também por pressão de vários grupos LGBT. O músico chegou mesmo a assinar o Reggae Compassionate Act, comprometendo-se assim a regressar às origens do reggae, respeitando a orientação sexual de toda a gente. No entanto, o cantor, reagindo aos recentes acontecimentos, frisou que "irá continuar a apoiar as leis do seus país", onde a homossexualidade masculina é um crime punível com uma pena máxima de dez anos de prisão.
Esta será a quarta vez que Sizzla actua em Portugal, depois de passagens pelos festivais Paredes de Coura (2003), Delta Tejo (2007) e pela Semana Académica de Lisboa, em 2009.

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