Jac Holzman, o lendário fundador da Elektra Records, para a qual assinou Judy Collins, os Love, os MC5 ou os Stooges, nunca deixou de pôr os olhos no futuro, quer através das bandas que assinou, quer na percepção do que a evolução tecnológica podia trazer à indústria musical. Aos 81 anos, acaba da lançar uma aplicação para iPad dedicada àquela que é a “sua” banda mais célebre, os The Doors, que assinou em 1966.
“Comecei com esta ideia: ‘Como posso contar esta história como se de uma box set se tratasse?’”, declarou à Rolling Stone terça-feira, a véspera do lançamento da aplicação que contém ensaios de Patti Smith, Francis Ford Coppola ou do crítico Greil Marcus, um mapa anotado de Hollywood ao tempo dos Doors, longas transcrições do julgamento de Jim Morrison por indecência em palco durante um concerto em Miami, em 1969, e uma reconstituição em áudio e BD do incidente.
Jac Holzman passou os últimos 16 meses a trabalhar no projecto sete dias por semana, o que é testemunho do carácter obsessivo do seu empenho. Juntamente com uma pequena equipa de colaboradores, pensou como contar “uma história contígua”, unindo todos os formatos habitualmente disponíveis nas caixas comemorativas (CD, DVD, livro com texto e fotografias). Segundo o New York Times a aplicação, disponível por 4,99$ (3,79€), é vista por Jac Holzman como um teste às possibilidades de as editoras rentabilizarem digitalmente os seus catálogos, num momento em que as vendas as reedições luxuosas, apontadas a um público mais velho e com mais poder de compra, estão em queda. Para recuperar o investimento calcula-se que tenham de ser vendidas 40 mil cópias da aplicação, que, além dos itens referidos, inclui páginas dedicadas a toda a discografia da banda, com vídeos e excertos das canções (naturalmente, com ligação à loja do iTunes, onde serão disponibilizadas esta semana versões remasterizadas de todos os álbuns do grupo).
Jac Holzman, fundador da Elektra na década de 1950, é um visionário da indústria musical. Depois da aposta no revivalismo folk na passagem para a década de 1960, mudou-se de Nova Iorque para Londres e perseguiu para a sua editora aquilo que via como a música rock mais exigente e criativa da sua era. Tal incluiu, além dos The Doors, um fenómeno de vendas, o proto punk, à época incompreendido, dos MC5 e dos Stooges, o folk-rock ora agressivo, ora grandiloquente, dos Love, os Butterfield Blues Band ou a voz única de Tim Buckley. Para além disso, Holzman geria também a Nonesuch, inicialmente dedicada à edição de LPs de compositores eruditos a metade do preço habitual mas que, no final dos anos 1960, passou a ser um centro de divulgação de música dos quatro cantos do mundo (a chamada world music, de certa forma, começa aqui), mas também a casa de um pioneiro da electrónica como Morton Subotnick, que ali editou o muito influente Silver Apples Of The Moon. Esta é a face mais visível do legado de Holzman. A outra, revela-se nisto que afirmou ao New York Times: “Estou sempre interessado em perceber como posso fazer a tecnologia trabalhar em favor da música”.
Nos anos 1970, quando lhe foi apresentado o CD, defendeu a sua viabilidade futura, contrariando o cepticismo dos seus pares e, em tempos anteriores à MTV, trabalhou com Michael Nesmith, um dos Monkees, na criação de uma produtora de vídeos musicais. Voltou a contrariar o consenso da indústria musical quando do advento da plataforma de partilha de ficheiros Napster, primeiro sinal do futuro de consumo musical que vivemos hoje. “O digital mudou a natureza do negócio da música, e a indústria reagiu com medo e uma certa indiferença”, afirmou ao New York Times. “O Napster enlouqueceu toda a gente menos a mim. Vi-o como uma oportunidade perdida. Podia ter sido uma bênção para os singles”.
Octagenário, continua a olhar com paixão para o futuro. A criação da aplicação para iPad dos Doors é o último exemplo disso mesmo. “Senti-me como o tipo que subiu 43 quilómetros e saltou dali com um para-quedas”.

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