Claude Nobs, a última jam session do director do festival de Montreux

Fundou o Festival de Jazz de Montreux e fez dele a sua vida. Claude Nobs, diz quem com ele trabalhou, tinha três paixões: a música, as pessoas e as montanhas.

Foi precisamente na sequência de um acidente de ski perto da pequena vila de Caux, onde morava, que Nods morreu, na quinta-feira, num hospital em Lausanne, na Suíça. Tinha 76 anos anos e estava em coma desde o dia 24 de Dezembro, depois de ter sido submetido a uma cirurgia, segundo a Agência France Press.

No site oficial do festival que criou em 1967, com o pianista Géo Voumard e o jornalista René Langel, com o apoio do presidente da norte-americana Atlantic Records, o turco Nesuhi Ertegün, a sua equipa despede-se num texto emocionado: “Como é suposto, partiste de surpresa para nos lembrar que na vida, como na música, cada jam [session] pode ser a última.”

Claude Nobs nasceu em Fevereiro de 1936 e, depois de ter sido aprendiz de cozinheiro, profissão que preferira à do pai, pasteleiro, começou a trabalhar no Turismo de Montreux, o que o levava a fazer muitas viagens. Foi numa dessas ocasiões, em Nova Iorque, que conheceu o patrão da Atlantic.

Aos 31 anos, fazia a primeira edição do festival, com o saxofonista Charles Lloyd e o pianista Keith Jarrett como cabeças de cartaz. O sucesso é imediato e, por isso, dirá mais tarde que não foi difícil transformar um pequeno festival de três dias num acontecimento internacional que levou, primeiro ao Casino de Montreux e depois às margens do lago de Genebra (hoje ocupa diversos espaços) grandes nomes do jazz, do blues, do rock e da pop mundiais.

Grandes cantoras como Nina Simone, Ella Fitzgerald, Marianne Faithfull e Elis Regina, mas também Miles Davis, James Brown, BB King, Frank Zappa, Santana, Prince, David Bowie, Herbie Hancock, Dizzy Gillespie, Chuck Berry, Pink Floyd, Led Zeppelin, Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, Ray Charles, Charles Mingus, Chick Corea e Bob Dylan estiveram em Montreux.

O ano de 1971 ficou marcado pelo incêndio durante o concerto de Zappa, que reduziu o casino da cidade a cinzas. Com a generosidade e a coragem que todos lhe reconhecem, o director do festival entrou no edifício em chamas para salvar crianças e jovens. A banda britânica de hard rock Deep Purple, que decidira gravar um álbum no casino depois do concerto do norte-americano, acabou por escrever uma canção sobre o incêndio, Smoke on the water, em que chama a Nobs “funky Claude”: “Funky Claude was running in and out pulling kids out the ground.”

Poucas bandas estão tão associadas a Montreux (o segundo maior festival de jazz do mundo depois do de Montreal) como os Deep Purple. Quincy Jones é outro dos nomes da casa, tendo dividido com Nobs a direcção deste festival que cresceu muitíssimo nos anos 1980 na década seguinte. Lembra o diário The Guardian esta sexta-feira que o músico e produtor norte-americano regressa todos os anos à Suíça para apresentar a secção dedicada aos novos talentos.

Foi também pela mão de Nobs, que se manteve na direcção artística mesmo depois de uma operação ao coração, há seis anos, que os Rolling Stones se estrearam na Suíça. Foi por causa dele que Aretha Franklin fez a sua primeira visita à Europa, conta a imprensa internacional.

Nobs juntava-se muitas vezes aos músicos nos palcos de Montreux, com os cães e a harmónica. “Tinhas um brilho no olhar sempre que lidavas com pessoas”, escreve a sua equipa na última mensagem que lhe dirige na página oficial do festival. “Para todos nós, que tivemos a felicidade de te encontrar pelo caminho, ficarás sempre como aquele que questionava as certezas, [incutindo às iniciativas um forte sentido de generosidade e partilha]. Obrigada por nos teres levado onde nunca julgámos ser capazes de chegar”, continua a missiva. “Querias uma despedida à imagem da tua vida e conseguiste.”

O festival, que em 2012 fez subir ao palco Dylan, Hancock, Janelle Monae e Lana del Rey, entre muitos outros, realiza-se este ano entre 5 e 20 de Julho. 
 
 

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