Claude Lanzmann, realizador de “Shoah”, receberá o Urso de Ouro honorário em Berlim

Shoah é a obra que define o percurso do realizador francês, mas a homenagem será feita ao conjunto da sua obra, que será alvo de retrospectiva integral. O Festival de Cinema de Berlim decorre entre 7 e 17 de Fevereiro de 2013.

Lanzmann tem em "Shoah" a obra da sua vida Pierre-Philippe Marcou/AFP

Claude Lanzmann, realizador de Shoah, o filme definitivo sobre o Holocausto nazi, será homenageado no próximo Festival de Cinema de Berlim. Em 1986, quando o épico documentário de nove horas e meia, cuja rodagem e montagem se prolongou por onze anos, foi exibido na secção Fórum da Berlinale, venceu o prémio Caligari e o prémio FIPRESCI da crítica. Agora, será Claude Lanzmann e o conjunto da sua obra, em que Shoah assoma como maior feito, a serem homenageados com um Urso de Ouro Honorário.

“Claude Lanzmann é um dos grandes documentaristas. Com as suas representações da inumanidade e violência, do anti-semitismo e suas consequências, criou um novo tipo de abordagem ética e cinematográfica”, afirmou o director do festival, Dieter Kosslick, citado esta tarde pela agência AFP. No Festival de Berlim, que decorrerá entre 7 e 17 de Fevereiro de 2013, será estreada a cópia restaurada de Shoah, incluída numa retrospectiva integral de Lanzmann. Na cerimónia de entrega do Urso de Ouro Honorário, por sua vez, será exibido Sobibor, 14 octobre 1943, 16 heures (2001), documentário sobre a revolta dos prisioneiros do respectivo campo de concentração.

Nascido em Bois-Colombes a 27 de Novembro de 1925, judeu, Claude Lanzmann integrou a Resistência francesa à ocupação nazi durante a II Guerra Mundial. Estudante de Filosofia em Paris e na Berlim libertada, activista já na década de 1960 pela libertação argelina do colonialismo francês, trabalhou maioritariamente como jornalista até ao início dos anos 1970 – é, ainda hoje, editor da revista Les Temps Modernes, fundada por Jean-Paul Sartre. Em 1974, começou a trabalhar naquele que seria o trabalho de uma vida. Nos onze anos seguintes, viajou por 14 países, procurando vítimas, testemunhas e autores do Holocausto. Sem recurso a imagens de arquivo, Lanzmann pretendeu dar voz ao indizível recorrendo às memórias, às terríveis emoções que elas libertam nos entrevistados e a imagens dos locais chave registados à época da filmagem. Shoah passa por Chelmo, o primeiro local onde foi testada a morte por gaseamento, fundamental à Solução Final hitleriana, pelos campos de concentração de Treblinka e Auschwitz-Birkenau e pelo Gueto de Varsóvia. Quando da sua estreia mundial em 1985, o crítico de cinema norte-americano Roger Ebert recusou-se a atribuir-lhe classificação, argumentando que pertencia a um género em si mesmo e que não poderia ser classificado em relação a qualquer outro filme.

Toda a obra de Claude Lanzmann emana do primeiro lugar que procurou enquanto realizador: o horror e as consequências do Holocausto e a condição judaica que dele nasceu. A Pourquoi, Israel, de 1972, que se debruçava sobre a fundação do estado judaico no final da II Guerra, seguiu-se Shoah. Tsahal (1994) seguia os homens e mulheres recrutados pelo exército israelita e Un vivant qui passe (1997) e Le Rapport Karski (2010) são autonomizações de Shoah, o primeiro sobre um delegado da Cruz Vermelha que visitou em 1943 o campo de concentração de Theresienstadt, considerado pelos nazis um campo modelo, e o segundo sobre o resistente polaco Jan Karski e a sua tentativa falhada de alertar os Aliados para o extermínio nos campos de concentração e, ao fazê-lo, de levá-los a agir.

Numa entrevista publicada no Ípsilon em 2011, é referida a cena de Shoah em que um antigo prisioneiro de Treblinka, Abraham Bomba, obrigado a cortar o cabelo às mulheres que, minutos depois, entrariam nas câmaras de gás, quebra perante a memória do companheiro de cativeiro que viu a sua mulher e a sua irmã entrarem no seu local de trabalho, antecâmara de morte. Escrevíamos: “Bomba não suportou e implorou a Lanzmann que lhe permitisse não continuar a contar a história. Lanzmann respondeu: ‘Tem de fazê-lo. Eu sei que é muito difícil’.” Para concluir: “Este foi o seu principal método em Shoah: encarnar a verdade do que aconteceu através de testemunhos de sobreviventes, mesmo que o preço disso fosse reabrir feridas antigas”. Método em Shoah que é, podemos arriscar, o método Lanzmann.

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