São apenas oito minutos – mas é tudo o que resta de um dos grandes filmes desaparecidos da história do cinema. O único excerto conhecido (à excepção do trailer) de The Patriot, filme mudo feito em Hollywood, em 1928, pelo realizador alemão Ernst Lubitch, pertence à Cinemateca Portuguesa, que o mostra hoje, numa sessão às 19h, integrada no ciclo de Janeiro sobre o seu arquivo.
Quando o excerto começa, o czar Paulo I, personagem central da história, está desesperado porque foi informado pela amante de que se prepara um golpe para o assassinar. Os oito minutos mostram os momentos de angústia do velho czar enlouquecido (interpretado por Emil Jannings), que manda os guardas procurar o conde (Lewis Stone, o “patriota” do título) que o estaria a trair. Quando o conde entra na sala e inicia um diálogo com o czar, garantindo-lhe que não o está a trair – o filme tem intertítulos em português – a imagem começa a ter falhas e, subitamente, o fragmento termina.
Como aconteceu com muitos outros filmes do cinema mudo, tanto quanto se sabe todas as cópias de The Patriot desapareceram. “Estima-se que a maior percentagem do cinema mudo tenha sido destruído no final do período de exploração comercial pelas próprias produtoras e distribuidoras que, na altura, não tinham noção da relevância cultural e comercial dos filmes e, portanto, não tinham a preocupação de os guardar”, explica Luís Miguel Oliveira, responsável pela programação da Cinemateca Portuguesa.
Como é que estes oito minutos (de um filme que tinha 108) chegaram à Cinemateca? O que se sabe – a história é contada numa folha de sala assinada por Manuel Cintra Ferreira, quando o pedaço do filme foi mostrado pela única vez na Cinemateca, em 2005 – é que o excerto pertencia à colecção do cinéfilo e cineclubista do Porto Henrique Alves Costa, entregue pela família à Cinemateca em 2002. Trata-se provavelmente do que restou de uma cópia exibida em Portugal, onde The Patriot estreou, no Tivoli, a 4 de Novembro de 1929.
“Como o fragmento terá chegado às mãos de Alves Costa, não se sabe, mas pode-se presumir que o tenha encontrado em qualquer alfarrabista ou feira da ladra, um resto da cópia que terá sido destruída, ou que tenha sobrevivido a um longo périplo por um qualquer exibidor ambulante”, escreve Cintra Ferreira.
Luís Miguel Oliveira lembra-se de ouvir João Bénard da Costa, o já falecido antigo director da Cinemateca, contar o entusiasmo que sentiu quando viu a caixa do filme com as palavras The Patriot escritas no exterior. Seria o tão procurado filme perdido? Era e não era. Foi com um misto de contentamento e desilusão que confirmou tratar-se de facto do filme de Lubitsch, mas apenas de um fragmento.
No meio de todos os filmes desaparecidos, The Patriot tem uma característica que o torna particularmente relevante: foi o último filme mudo nomeado para Melhor Filme pela Academia de Hollywood. A derrota que sofreu é simbólica do fim de uma era. O vencedor nesse ano foi Broadway Melody, o primeiro sonoro a ser escolhido como Melhor Filme. O tempo do mudo estava a chegar ao fim e, apesar de ter sido uma produção de luxo, The Patriot foi feito numa altura em que o público ansiava por ver os actores a falar no ecrã.
O actor alemão Emil Jannings – que tinha ganho nos Estados Unidos o prémio de Melhor Actor pelo filme The Last Command – regressou à Alemanha, onde viria a fazer, entre outros, O Anjo Azul, de Josef von Sternberg, contracenando com Marlene Dietrich. Lubitsch, por seu lado, converteu-se com sucesso ao sonoro.
Quanto a The Patriot, fica para a história como o único filme a ter sido nomeado para Melhor Filme do qual não existe (ou não foi encontrada até hoje) uma cópia completa – ou sequer perto disso. Restam os oito minutos que hoje podem ser vistos na Cinemateca.

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