Um “grande poeta”, mas também um “grande homem”, um jornalista “inovador” e uma pessoa “muito solidária”. Centenas de pessoas estiveram este domingo de manhã na Igreja de Nossa Senhora da Boavista, no Porto, para participar nas cerimónias fúnebres do escritor Manuel António Pina, que morreu na sexta-feira.
“Porquê poetas em tempos de penúria?”, questionou, na homilia, o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, para depois elogiar o “escultor de palavras” Manuel António Pina: “o poeta é aquele que constrói o impossível – e o impossível devia ser possível”. Mesmo em tempos em que se “contabiliza tudo em números”.
D. Januário elogiou o “homem recto, competente, solidário e lúcido”, querido por vários sectores da “cidade do Porto e da cidadania em geral”, da “cultura poética e teatral” e do jornalismo.
Em todas estas áreas, disse, “fica um vazio” com a morte do escritor, nascido no Sabugal em 1943 mas feito portuense pela vida.
“Inconformismo” e um “misto de sonho e de bom humor, que falta tanto a tanta gente”, foram outros atributos do prémio Camões 2011 que D. Januário quis realçar.
O bispo acabou a homilia dizendo: “Nós pela saudade é que vamos. Os mortos é que nos conduzem.”
O funeral seguiu para o Cemitério do Prado do Repouso, no Porto. A missa de sétimo dia está marcada para quinta-feira, às 19h.
“Uma das grandes pessoas”
Várias figuras das artes, da política e do jornalismo estiveram presentes na cerimónia.
Entre elas, estava o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, que assumiu estar ali para “uma despedida”.
“Ficou prometida há muito tempo e não se pode fazer de outra maneira, quando uma pessoa como o Pina parte: temos que estar presentes”, declarou, emocionado, aos jornalistas.
“Éramos amigos, quando vinha ao Porto falávamos. Não estivemos juntos tanto tempo quanto eu queria, vivíamos em cidades diferentes. Era uma das grandes pessoas – não só um grande poeta, um grande homem”, afirmou Viegas, que é também escritor.
“O Pina anda por aí”
Várias gerações de jornalistas, a maior parte deles do Jornal de Notícias (a “casa” jornalística de Pina), políticos, como Miguel Cadilhe (PSD), Braga da Cruz e Manuel Pizarro (PS) e Honório Novo (PCP), e personalidades da vida pública portuguesa marcaram presença no funeral.
“Tive a notícia [do falecimento de Pina] cinco minutos depois da morte, dada por um SMS da filha Sara, miúda com a qual andei ao colo”, contou aos jornalistas o presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, Carlos Magno.
“O Pina anda por aí”, disse Magno. “Ele continuará a andar por aí, em qualquer pessoa que seja simples, que seja completamente irónica, lúcida, de uma ironia que às vezes até atropela.”
“Manuel António Pina vai continuar a viver comigo. É mais um ‘adeus, até já’ a um grande homem de Portugal. Prefiro sublinhar a parte humana, é óbvio que é um dos grandes poetas portugueses”, declarou o ex-presidente da Câmara do Porto Nuno Cardoso, de voz embargada. “É uma perda, sendo que os poetas não morrem. Talvez o leiam mais agora.”
“Foi uma perda que senti muito porque éramos amigos, mas também porque perdemos um dos maiores trabalhadores da nossa língua”, comentou a eurodeputada da CDU Ilda Figueiredo. “A melhor forma de continuarmos a perpetuar a sua memória é pela leitura da sua obra. E assim teremos sempre connosco Manuel António Pina”.
A comunista recordou ainda um “homem profundamente solidário, sensível e preocupado com a situação” que Portugal atravessa.
O sorriso
Alberto Martins, do PS, lembrou as lutas que travaram juntos no Movimento de Esquerda Socialista (MES) e a favor da candidatura de Maria de Lourdes Pintasilgo à Presidência da República. Pina participou em reuniões do MES e fez parte da comissão política nacional da candidatura de Pintasilgo.
“Fizemos serviço militar juntos”, contou ainda o ex-ministro da Justiça, que recordou o “sonhador” e o “sentido de justiça” do escritor, um “espírito criador, livre, ‘futurante’, uma figura ímpar”.
Germano Silva, companheiro de Pina no Jornal de Notícias, via nele o “melhor cronista da actualidade” em Portugal e um jornalista “inovador”, que rompeu com o formalismo no ofício de contar histórias que ainda prevalecia no Portugal da censura, nos anos 1970.
“Era uma técnica nova que transformava uma banalidade numa crónica”, apontou Germano Silva, em declarações ao PÚBLICO.
Conheceu Pina no Café Piolho e ficaram amigos por causa da poesia – “eu como leitor, ele como poeta”.
“Além do talento que ele tinha, era a maneira como encarava a vida, sem ódios, sem rancores”, sublinhou o jornalista e historiador do Porto. “Tinha um sorriso que era uma janela aberta sobre o coração dele”.
Notícia actualizada às 13h04 e corriguda às 16h39
Braga da Cruz é do PS, não do PSD, como estava escrito

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