Pavel, o Terrível? No tribunal, bailarino recusa responsabilidade pelo ataque com ácido

Pavel Dmitrichenko enfrentou a juíza perguntando-lhe se tinha a certeza de ser ele o responsável pelo ataque ao director do Bolshoi. Ficou em prisão preventiva e foi formalmente acusado.

Pavel Dmitrichenko dentro de uma cela no tribunal em Moscovo Reuters

Disse o suspeito: “Tem a certeza de que fui eu quem o fez?”. E as dúvidas aumentaram. Pavel Dmitrichenko disse ao tribunal quinta-feira de manhã, em Moscovo, que ter sido o mandante do ataque a Sergei Filin, director artístico do teatro Bolshoi, a 17 de Janeiro, não faz dele necessariamente culpado. “Dizer que fui eu que mandei [o executante] atirar ácido, é falso”, disse o bailarino a uma juíza que não aceitou os argumentos da defesa que pedia a libertação do intérprete de Ivan, o Terrível sob uma caução de 500 mil rublos (12.500 euros).

 “Compreendo que o tribunal não o faça”, disse o acusado que acrescentou ainda que a conversa que teve com Yuri Zarutsky, o confesso agressor, se centrou “na política do Bolshoi” e “na corrupção”. Dmitrichenko, bailarino solista desde 2002, terá, segundo fontes da imprensa russa citadas na imprensa internacional, reagido negativamente ao afastamento da sua namorada Anzhelina Vorontsova da interpretação do duplo papel de Odette (o cisne branco) e Odile (o cisne negro) em Lago dos Cisnes, do mesmo modo que não teria ficado satisfeito com a reacção da direcção do Bolshoi ao seu comportamento explosivo aquando das críticas negativas à sua interpretação em Ivan, o Terrível, no final de 2012. Reacção que teria levado a direcção de Filin a decidir que Dmitrichenko interpretaria um papel menos visível no dia 16 de Março em A Bela Adormecida.

“Quando ele [Zarutsky] me disse que lhe ia partir a cara, aceitei”, confessou o bailarino. “Foi a única coisa com a qual concordei”, acrescentou, afirmando ainda que o objectivo do ataque era apenas a intimidação. “Quando me dei conta do que se havia passado, e que envolvia ácido, fiquei em choque”. A estratégia de defesa de Dmitrichenko vai ao encontro das dúvidas que existem sobre o móbil do crime e os seus verdadeiros responsáveis.

O director do Bolshoi não acredita que Dmitrichenko seja o único implicado dentro do teatro. “A história terá mais responsáveis e é mais vasta do que isto”, disse através da mulher e do seu advogado ao jornal Komsomolskaïa Pravda, citado pela AFP e pelo New York Times. Filin  voltou a confirmar as suspeitas de que por detrás da acção de Dmitrichenko possa estar o seu professor e mentor Nikolai Tsiskaridze, também bailarino e rival de Filin na corrida à direcção do Bolshoi. A imprensa russa havia escrito que Tsiskaridze afirmara que Filin teria dificuldade em ver-se ao espelho dentro de semanas, após o director do teatro ter recusado Vorontsova por ser demasiado gorda para o papel do Lago dos Cisnes.

No tribunal, cujas sessões começaram hoje, Dmitrichenko voltou a perguntar aos jornalistas se tinham a certeza de ser ele o culpado. Ellen Barry, do New York Times, que tem estado a twittar em directo da sessão, diz que o bailarino confessou, do interior da cela na sala de audiências, que deu informações a Zarutsky sobre o percurso de Filin, que havia encontrado uma fórmula para tornar o ácido sulfúrico mais forte na Internet, mas recusou-se a responder se Anzhelina Vorontsova estava envolvida no caso.Acrescentou ainda que Filin o havia afastado da corrida a uma bolsa em Dezembro.

Questões de dinheiro e protagonismo são algumas das razões levantadas pela acusação a Dmitrichenko. Ao New York Times a assistente e consultora do director do teatro, Dilyara Timergazina, afirmou que o bailarino se sentia insatisfeito, apesar de ter sido promovido recentemente por Filin a principal solista, uma categoria abaixo de étoile. Dmitrichenko terá insistido com Filin para interpretar o papel principal em La Bayadère, ao mesmo tempo que prosseguia na defesa de Vorontsova para o duplo papel em Lago dos Cisnes. À resposta negativa de Filin, segundo contou a assistente, o bailarino terá dito: "Vou mostrar-te. Vou preparar um início de ano inesquecível".

Confrontado com estas acusações em tribunal Dmitrichencko não confirmou o episódio. O julgamento tem atraído as atenções em Moscovo, com mais de vinte câmaras de televisão presentes na sala. A defesa de Dmitrichenko está a ser assegurado por três advogados que procuram evitar uma condenação que pode ir até aos 12 anos. A polícia revelou entretanto que ao agressor foram pagos 50 mil rublos (cerca de 1200 euros).
 
 

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