João Fernandes quer convidar Manoel de Oliveira e Álvaro Siza a visitarem uma das duas grandes exposições que ocupam, este Verão, as salas principais do Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS), no Porto: De Perto à Distância, da holandesa Marijke van Warmerdam (n. Niewer-Amstel, 1959). Ao arquitecto que desenhou o edifício, o director artístico do museu vai guiá-lo directamente à estreita escada que liga o piso de entrada à galeria inferior, para que ele, depois de ter passado por uma inesperada guarda de honra formada por dois simpáticos ursos, a desça ouvindo a instalação Drop (Cair): o som de uma bola de pingue-pongue a saltitar degraus abaixo...
"É uma instalação especificamente pensada para este lugar, aproveitando o detalhe das escadas e suscitada pela arquitectura de Siza", explica João Fernandes, acrescentando que a considera "uma das peças mais bonitas" jamais instaladas em Serralves.
O som é criado por uma sequência de colunas que debitam a gravação de uma bola de pingue-pongue deixada cair nas escadas, mas que depois foi trabalhada em computador pelo engenheiro de som Frank van der Weij (que já trabalhou também com a Casa da Música).
A Manoel de Oliveira, João Fernandes vai levá-lo a ver o pequeno filme O Regresso do Chapéu, numa das salas grandes do museu. É o registo de uma dessas curiosidades em que a natureza é fértil: na borda de uma cratera natural na Suíça, um chapéu branco lançado sobre o vazio volta sempre ao ponto de partida, como um boomerang, enlevado pelas correntes do ar! "Podia muito bem ser o chapéu do Manoel [de Oliveira], assim lançado num loop sem fim", exclama o director do museu, que acha que o realizador gostará também de ver os outros filmes da exposição.
É assim, destas coisas por vezes desconcertantemente simples, que se faz a arte de Marijke van Warmerdam, a artista holandesa actualmente com mais relevo internacional. "Tudo se passa onde nada se passa", escreve João Fernandes no texto de apresentação da exposição de Marijke no suplemento em português que completa o catálogo raisonné da mostra.
De Perto à Distância, uma co-produção do MACS com o museu Boijmans van Beuningen de Roterdão, inaugurada a 21 de Julho, é a maior exposição retrospectiva dos trabalhos de Marijke van Warmerdam (tem obras de 1989 a 2012), um nome firmado nas duas últimas décadas com passagem por "palcos" mundiais da arte, como as bienais de Veneza, Sydney e Berlim, ou a Documenta de Kassel. Em Portugal, é a primeira vez que o público tem acesso ao conjunto das suas obras - o seu currículo refere, contudo, a presença numa colectiva na Galeria Graça Brandão, no Porto, em 2006.
"Marijke van Warmerdam é uma artista que trabalha a imagem em movimento de uma forma muito curiosa, e que não é frequente vermos no nosso país", explica João Fernandes, a introduzir a visita em que guiou o PÚBLICO à exposição de Serralves, de que é comissário com o belga Jan Debbaut (ex-director das colecções da Tate de Londres). A exposição no Porto tem, de resto, uma montagem especificamente preparada pela artista e por Fernandes para os espaços do museu, e adequada à necessidade de divulgação de um nome praticamente desconhecido em Portugal. Marijke pertence à geração que, no final dos anos 80, "interroga as novas possibilidades do cinema e do vídeo", recorrendo em especial à técnica do loop, que faz com que uma acção possa ser repetida indefinidamente.
Filmes e abstracções
De Perto à Distância é uma viagem que começa, sugestivamente, com imagens (permanentemente repetidas) de aviões a partir do aeroporto holandês de Schiphol. Leva-nos, de seguida, para duas séries de peças que balizam duas das vertentes da criação de Marijke. De um lado, dois velhos projectores de película com ecrãs acoplados exibem sucessivamente imagens a construírem-se como abstracções, a partir da queda de arroz e de um jogo de formas e de luz entre o branco e o negro. "Este - Passagem - é um dos filmes dela de que mais gosto", diz João Fernandes, acrescentando mesmo estar a considerar a aquisição da peça para a Colecção de Serralves. "Leva-nos à história da arte, aos filmes abstractos do Hans Richter e do movimento Dada", nota.
No meio da sala, duas bacias de plástico surgem cheias de cartões com a conjunção "e" e o seu equivalente em vários idiomas: et, and, und... Fernandes explica que a "versão portuguesa "e"" foi a segunda criação que Marijke fez propositadamente para Serralves. "Ela tem várias estratégias de relacionamento com a arte conceptual, sendo uma delas a utilização da linguagem".
Há também momentos de ironia e irrisão, como o das três slot machines, em Bandido com Braço, que permitem ao visitante candidatar-se a um jackpot verdadeiro. "Acho que podem sair até 100 euros", diz Fernandes, enquanto arrisca - sem sucesso - uma moeda de 50 cêntimos.
Mas é no recurso às imagens em movimento que Marijke constrói as obras mais apelativas, pelo menos para o público menos avisado sobre as linguagens da arte contemporânea. A sala maior do piso da entrada de Serralves oferece uma instalação de vários ecrãs duplos (frente e verso), onde se podem acompanhar loopings mais ou menos extensos, desde o boomerang do chapéu "oliveiriano" até ao fascinante plano-sequência de um passeio de bicicleta no campo; do plano "hitchcockiano" de uma pinga de leite que cai num copo de água até, já no piso inferior, ao grande ecrã que nos envolve na visão de um casal de velhos sentados num banco sobre a erva - "o mais espantoso movimento de câmara de todos os filmes da Marijke", diz Fernandes, comparando-o ao enigmático plano final de Profissão Repórter, de Antonioni.
Também no piso inferior, Marijke transporta o visitante para o cenário primaveril das amendoeiras em flor, num caleidoscópio de espelhos reproduzindo fotografias feitas pinturas, no centro do qual uma boneca cujo corpo é todo ele uma paisagem desliza numa dança tão imperceptível quanto hipnótica.
E também há papagaios nesta viagem em que "o tempo flui sem início nem fim", diz João Fernandes - que na tarde de 27 de Setembro guiará nova visita pública a esta exposição que vai ficar em Serralves até 14 de Outubro.

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