As artes de Lisboa na imprensa parisiense

Lula Pena Miguel Madeira

O Théâtre de la Ville é, nesta primeira quinzena de Junho, um palco privilegiado para os jovens criadores de Lisboa. Mas esta mostra das artes portuguesas está também a ter um reflexo pouco usual nos media parisienses.

O jornal Libération dedicou ao Chantiers d’Europe: Lisbonne-Paris um suplemento de quatro páginas na edição de terça-feira (4 de Junho), com o título Paris põe o Tejo em cena, e um destaque especial ao “pós-fado de Lula Pena”. “Cada um dos seus concertos é um ritual e uma terapia (…), que desconstrói o género para o abrir a África ou à língua espanhola”, escreve o crítico de música François-Xavier Gomez.

Na apresentação do programa do Chantier, o Libé diz tratar-se das criações dos artistas mais jovens, que trabalham “à margem dos grandes circuitos internacionais e num contexto económico no mínimo pouco favorável”. E admite mesmo que este olhar mais alargado sobre a cena contemporânea portuguesa pode, a partir de Paris, “interrogar mais largamente as práticas europeias”. O suplemento deste diário dedica ainda artigos específicos ao Teatro Praga e à bailarina e coreógrafa Tânia Carvalho e ao colectivo Bomba Suicida.

O Le Monde dedica uma página na sua edição de 5 de Junho ao programa Lisbonne-Paris, com o título Uma Primavera portuguesa para trazer o sol a Paris. Começa por apresentar Tânia Carvalho e o Bomba Suicida, entrevistando depois Emmanuel Demarcy-Mota, mas também André E. Teodósio (Teatro Praga), Thomas Walgrave (director do Festival Alkantara) e Miguel Honrado (presidente da EGEAC), para traçar o quadro da criação lisboeta. E dá um destaque autónomo à conversa com o programador da Gulbenkian António Pinto Ribeiro: “Não somos nem espanhóis, nem franceses, continuamos a cultivar a melancolia, a nostalgia, somos impregnados de um certo impressionismo do Sul”, diz o comissário da mostra de cultura contemporânea Próximo Futuro.

Na radiografia que faz da cena artística portuguesa, o Le Monde salienta o facto de se tratar de “um país que foi penalizado com a extinção do Ministério da Cultura – substituído por uma secretaria de Estado sem meios –, desde a chegada do Governo de centro-direita de Pedro Passos Coelho em 2011”.

A influente revista de espectáculos Télérama enviou uma sua repórter, Anne Berthod, a Lisboa para conhecer o fenómeno do fado. Ao longo de três páginas, e sob o título O novo sopro da alma, a jornalista descreve a experiência de uma noite numa casa de fados em Alfama (A Bela – Vinhos e Petiscos), onde constatou que “o famoso blues ibérico, este canto do destino e da alma ferida, este sentimento apaixonadamente melancólico, vive uma verdadeira renovação”. Também visitou o Museu do Fado, e entrevistou protagonistas de diferentes gerações, como Celeste Rodrigues, Mariza, Ana Moura, Camané, Cristina Branco, Mísia ou Carminho. E conclui que “o fado está a renascer, mas continua a ser o povo que canta”.

Já a revista Les InRocKuptibles destaca, em duas páginas, o espectáculo de Tiago Rodrigues Três Dedos Abaixo do Joelho, que o jornalista Hugues Le Tanneur foi ver no Festival de Bruxelas. “É o fruto doce e amargo duma viagem ao coração dos arquivos da censura existente durante a ditadura salazarista”, escreve o articulista, a quem Tiago Rodrigues – apresentado como representando “uma jovem geração de criadores em ebulição, apesar das drásticas restrições orçamentais” – explicou que o que mais lhe interessou na investigação realizada nos arquivos da censura salazarista “foi a extrema importância dada ao teatro, visto pelos censores como uma arte perigosa”. Para os censores, acrescenta à Les InRocks o encenador de Três Dedos Abaixo do Joelho, o teatro era mais perigoso que o cinema porque “age directamente sobre os nossos sentidos através da presença física dos actores. É mais comunicativo e, por isso, mais contagioso. Pode agir como um vírus”.

Estações de televisão e de rádio têm também dado tempo de antena à presença das artes de Lisboa em Paris, tendo a rádio France Inter, por exemplo, dedicado várias horas da sua emissão de quarta-feira à manifestação, que incluiu a transmissão em directo do concerto de Carminho.

 
 

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