Artistas e política

A ideia de que os artistas estão invariavelmente comprometidos com uma agenda política de esquerda, ou mesmo declaradamente revolucionária, é uma falácia que é oportuno desconstruir

Num tempo em que todos são chamados a tomar uma posição, os artistas estão, também eles, sujeitos a um olhar sobre o seu posicionamento político ou, para utilizar uma terminologia conforme ao estado de guerra em que nos encontramos, sobre o campo em que se situam. Isto não acontece por acaso, pois a sua participação política - manifesta ou insinuada - é vista como legítima pelos que estão do lado da crítica aos sistemas autoritários e neo-liberais (e que adoptam posições contestatárias como se estas constituíssem uma forma superior da luta). Já do lado da direita autoritária e dos poderes da guerra financeira, essa participação é mais uma razão para excluir os artistas da esfera do Estado, remetendo-os para um lugar sob o controlo desses poderes com a eufemística expressão de que as artes e a cultura (binómio não necessariamente equivalente) devem cair sob a alçada dos investimentos privados.

Nesta assunção de que os artistas pertencem exclusivamente a um dos campos - o campo da "revolução" -, há, contudo, um conjunto de mitos e de falácias. Atirar os artistas - a que se associam muitas vezes os escritores - para esse campo teve o seu momento histórico na Revolução Francesa com a criação das bancadas da esquerda e da direita, e acentuou-se em particular no século XX com as revoluções comunistas e os fascismos. As décadas de 60 e 70 foram responsáveis pela ideia de que no passado e para o futuro todos os artistas e escritores pertenceriam unanimemente a um único dos campos - o da Revolução. Tal decorria da herança dos realismos socialistas e dos modernismos mais interventivos, como os sul-americanos, do neo-realismo artístico com a sua exaltação do herói oriundo do povo, e da crença da autonomia radical da obra de arte. "A imaginação ao poder", ideia que reivindicou a criatividade artística como aliada da revolução, os pós-modernismos nas artes performativas, o carácter libertário da performance e do happening associado às reivindicações dos movimentos feministas, o black power e a contestação dos sectores artísticos à Guerra do Vietname - tudo isso contribuiu para que se consolidasse esta ideia de que todos os artistas são contra o sistema, de esquerda, pobres ou remediados, defensores de causas e "sempre, sempre ao lado do povo". 

Mais recentemente reclamou-se uma nova sacralização dos artistas com o argumento de que eles estão na primeira linha dos movimentos Occupy, nas revoluções da Primavera Árabe e na contestação às políticas dos governos neo-liberais em Espanha, em Portugal e na Grécia.

Eis-nos perante um conjunto de mitos que é oportuno desconstruir. Se é verdade que a pulsão subjacente à criação artística ou intelectual - uma pulsão de vida e portanto de devir e de futuro - legitima a esfera das artes e da literatura (Platão expulsa os poetas da cidade por causa da sua ilogicidade, Nietzsche anuncia que a tragédia, acto maior da condição humana, só é viável pelos artistas), também é um facto que arte e artista não se confundem necessariamente. As ilusões das vanguardas (a pessoa fundida no artista, segundo as teses de Allan Kaprow) são, de facto, ilusões porque se há coisa que a cada ser humano é comum é a sua multiplicidade e, no caso dos artistas, com maior ou menor intensidade, a sua heteronímia. Do mesmo modo, a associação dos modernismos à ideia de vanguarda equivalia à associação de modernismo com transformação, apesar de todos os equívocos. E a autonomia radical da arte é hoje, mais do que nunca, no complexo de operadores e mediadores que constituem o sistema das artes, uma autonomia apenas relativa; tanto que até pode haver uma fissura entre a obra e o artista.

A este aspecto haverá que acrescentar outros que desconstroem o mito de que todos os artistas, por unanimidade, são de esquerda e estão do lado da Revolução. São muitos os exemplos dos que se colocaram no campo contrário. Os casos mais notórios serão Céline (fascista e anti-semita), Ezra Pound (também ele seduzido pela ordem do fascismo italiano), Mário Vargas Llosa (que passou de adolescente comunista a candidato presidencial de direita), Elia Kazan (colaboracionista do Macartismo), Ronald Reagan (que foi o Presidente americano da direita mais conservadora), Clint Eastwood (que confirmou de que lado estava nas recentes eleições americanas com o famoso discurso da cadeira vazia), etc. 

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