Apesar dos protestos, máscaras sagradas nativo-americanas foram vendidas por valores acima do esperado

Venda dos objectos considerados sagrados pela tribo hopi rendeu 520 mil euros.

A leiloeira francesa Eve vendeu esta segunda-feira as 24 máscaras katsinam, consideradas sagradas pela tribo nativo-americana hopi, por valores acima das estimativas – as peças foram vendidas por um total de 520.375 euros em Paris, apesar dos protestos de uma organização de defesa dos direitos dos povos indígenas e da embaixada dos Estados Unidos em França.

Segundo a agência de notícias AFP, que cita a leiloeira, a mais valiosa dessas máscaras hopi, que data do século XIX e cuja estimativa de venda oscilava entre os 60 mil e os 80 mil euros, foi vendida por 125 mil euros a um comprador que licitou por telefone. Outras três máscaras, mas da tribo San Carlos apache, que também contestou a venda, foram vendidas por um total de 30 mil euros. Várias outras peças suplantaram os valores estimados de venda.

O leilão incluiu cerca de 170 peças ameríndias, cuja venda rendeu 1,167 milhões de euros, segundo a AFP, e algumas peças de arte pré-colombiana. A embaixada dos EUA pediu, no sábado, à leiloeira Eve que a venda fosse adiada para dar tempo aos povos queixosos de analisarem as peças. “A embaixada fez este pedido em nome das duas tribos, para que elas possam ter a oportunidade de identificar os objectos, investigar a sua proveniência e determinar se têm direito a reclamar a devolução dos objectos ao abrigo da convenção da Unesco de 1970 sobre exportação e transferência de propriedade cultural, de que França é signatária, ou ao abrigo de outras leis”, disse este fim-de-semana a embaixada em comunicado.

Contudo, a Eve recordou que, na sexta-feira, um tribunal parisiense decidiu contra a queixa da organização Survival International, que se opunha à segunda venda num ano deste tipo de artefactos em França (a outra decorreu em Abril e rendeu quase um milhão de euros), considerando que este leilão decorreria “dentro da mais estrita legalidade”.

Na sala estiveram compradores, mas também licitadores por telefone, bem como um representante da embaixada dos EUA, que quis “mostrar solidariedade com as duas tribos”, cita a AFP. “Continuamos preocupados com esta venda, que se fez sem que as tribos hopi e apache tenham tido tempo para examinar os objectos e a sua proveniência, para ver se poderiam reivindicá-las”, explicou ainda Philip Breeden, conselheiro dos Assuntos Culturais na embaixada dos EUA.

O povo hopi, cujo território se situa hoje sobretudo no Nordeste do Arizona, onde fica a sua reserva, tem como tradição a representação dos espíritos dos seus antepassados nestas máscaras, a cuja comercialização se opõe. Estas peças são vistas como seres vivos pela tribo em causa.

Um dos compradores foi exactamente o advogado da Survival International, que representou os hopi neste caso, detalha a AFP. Pierre Servan-Schreiber comprou uma das katsinam, o nome dado às máscaras pela tribo, por 16.250 euros – no leilão de Abril, ele já tinha adquirido uma máscara, que restituiu à tribo em Julho. “Esta é ainda uma luta perdida. Mas vamos continuar a nossa acção”, disse à agência francesa.
 
 
 

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