António Zambujo encerra "um ano muito bom" com a sua estreia no Coliseu de Lisboa

Depois de um ano em que chegou rapidamente a disco de ouro, Quinto chega ao Coliseu de Lisboa. Para Zambujo é uma estreia.

"A minha relação com os discos é quase de total desprezo" Miguel Madeira

Ele já actuou em numerosos palcos, dentro e fora do país, mas é a primeira vez que se apresenta a solo num coliseu. António Zambujo, fadista para lá do fado, leva hoje o seu quinto disco (a que chamou isso mesmo, Quinto) ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa (21h30). Não foi um desejo megalómano, mas a vontade de encerrar um ano que lhe correu particularmente bem. "Fazer o concerto no coliseu", diz Zambujo, nas vésperas do espectáculo, "deveu-se ao facto de eu ter tido um ano muito bom, desde logo com o lançamento do disco em Abril e os concertos de apresentação na Gulbenkian, e depois o facto de ter chegado muito rapidamente a disco de ouro. Foi uma decisão meio sensata meio inconsciente, mas felizmente está a correr muito bem".

Nascido a 19 de Setembro de 1975, em Beja, António Zambujo começou a ser falado além-fronteiras quando Caetano Veloso confessou ter-se emocionado a ouvi-lo, lembrando-lhe João Gilberto num ambiente proporcionado pelo fado. Na verdade, é já quase um cliché dizer que Zambujo tem em João Gilberto, como em Chet Baker, influências decisivas no modo como canta e toca. E ele, que sempre que fala de um novo disco as menciona, a par do cante alentejano na infância ou do fado que mais tarde abraçou, tem feito tudo para que tais influências dêem frutos naturais. Essa evolução é patente nos discos que até agora gravou: O Mesmo Fado (2002), Por Meu Cante (2004), Outro Sentido (2008), Guia (2010) e Quinto (2012).

Hoje, fará uma viagem pelos seus discos mais recentes. "O concerto tem por base o Quinto, mas não vou cantá-lo todo. Haverá uma selecção de músicas do disco, a abrir, depois uma parte em que tocaremos com o trio clássico de fado, guitarra, baixo e viola, com músicas não só do Quinto mas também do Guia; e depois, na parte final do concerto voltaremos ao quinteto, ao Quinto, ao Guia e ao Outro Sentido."

Mas ele não se apega aos discos, pelo contrário. "A minha relação com os discos é quase de total desprezo depois da fase de preparação para o primeiro concerto, quando os ouço mais. Depois desligo-me e deixo de os ouvir. Já as canções ao vivo ganham uma outra vida, vão sofrendo alterações, já não são tocadas como foram nos discos, porque cada disco não passa de um registo daquele momento. Se o gravasse dois dias depois, já não seria o mesmo. Não digo que fosse melhor ou pior, mas seria com certeza diferente."

A abrir, uma cantora catalã

Com Zambujo (voz e guitarra) estarão em palco os quatro músicos que completam o quinteto original de Quinto: Bernardo Couto (guitarra portuguesa), José Miguel Conde (clarinetes), Ricardo Cruz (contrabaixo) e Jon Luz (cavaquinho). Não só. Também estarão em palco, em dado momento do espectáculo, o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento. 

E, na primeira parte, a jovem cantora catalã Sílvia Pérez Cruz. Nascida em Girona, a 15 de Fevereiro de 1983, lançou em 2012 o primeiro disco a solo. Zambujo ouviu falar dela em Madrid, depois de tocar num festival de jazz. Uma amiga falou-lhe de Sílvia Pérez Cruz, sugeriu-lhe o disco, ele gostou muito e comprou-o logo. "Por coincidência, mais tarde, sugeriram-me em Lisboa o nome dela para a primeira parte do espectáculo." Disseram-lhe que tinha afinidades com o que ele fazia. Zambujo deu então "luz verde" à ideia e Sílvia Pérez Cruz estará hoje no Coliseu, a apresentar o seu trabalho. Se cantarão juntos ou não, ainda é segredo. Mas o que seria um espectáculo sem segredos?

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues