No fim de um ano tramado e na véspera de outro que vai ser ainda mais tramado, era de esperar que a irritação dos portugueses estivesse a bater ferros. Mas não. O nível de conflito até está bem baixo. Não há crispação extra. Aliás, sobeja amor: os portugueses não só andam com imenso amor para distribuir pelos seus compatriotas, como ainda andam com amor para distribuir pelos seus edifícios.
Foi o que se viu no passado domingo, quando 250 pessoas se juntaram no Porto para abraçar a Casa da Música. Segundo o lead do Público, estiveram envolvidos nesta manifestação pública de carinho "políticos, agentes culturais e cidadãos". (À primeira vista, a distinção entre "políticos e agentes culturais" e "cidadãos" pode parecer uma formulação descuidada. Na realidade, é uma analogia muito bem construída. Remete para o manual de História do 5.º ano, que explicava que a sociedade feudal portuguesa estava estratificada em três ordens: nobreza, clero e povo. O jornalista invoca essa imagem e percebemos logo que os políticos taxam os cidadãos para subsidiarem os agentes da cultura, que ensinam os cidadãos.)
A iniciativa em si é supercriativa. Como é óbvio, uma vez que foi imaginada por agentes culturais. Numa altura em que todos os grupos protestam, nenhum se lembrou de o fazer através de abraços a estruturas. Os professores não abraçam escolas, os estivadores não abraçam gruas, nem os funcionários públicos abraçam direcções-gerais. Limitam as reivindicações a vulgares greves e monótonas manifestações.
Em 2013, esperam-se mais eventos contestatários do tipo "Miminhos a Salas de Espectáculos". "Cafuné ao D. Maria II", por exemplo. Ou "Em Conchinha com o Rivoli". "Dois Beijinhos ao S. Carlos", talvez. E "High Five ao Pavilhão Multiusos de Boticas".
É por rasgos destes que os agentes culturais devem ser protegidos. A propósito dessa protecção, Maria do Céu Guerra revoltou-se contra as pessoas (ou cidadãos) que, não sendo actores (ou agentes culturais), fazem dobragens em filmes. "Não vou para o hospital fazer uma cirurgia", diz, sugerindo que, tal como um médico tem de decorar canhenhos de Anatomia e Anestesiologia para mais tarde poder fazer um bypass coronário, um actor decora falas e sítios onde tem de estar para as dizer - que chegam a ser dois ou mais, se a fala começar a ser dita num determinado local e for completada noutro - para mais tarde gravar um episódio da novela. A semelhança entre as vocações é impressionante. É por isso que é tão comum ouvir gritar "Há algum médico nesta sala?" como "Há algum actor nesta sala?"
Urge uma Ordem que regule o acesso à profissão. Da mesma maneira que um falso médico pode matar alguém, um falso actor pode enganar-se no texto. Quem já assistiu a um Agamémnon arruinado por uma Clitemnestra negligente sabe que a desgraça não é menor.
Maria do Céu Guerra tem razão. Sei-o por experiência própria. Há tempos dobrei umas falas para um filme de desenhos animados que se estreou agora e, à saída do estúdio, fui tomado por uma vontade de efectuar uma apendicectomia na primeira pessoa com quem me cruzasse. O desejo era tão forte que nem precisava de ser num agente cultural, bastava-me um cidadão.
Esta crónica foi publicada na revista 2 a 6 de Janeiro de 2013

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