Ai Weiwei publicou na quarta-feira o videoclip de Dumbass. O artista dissidente chinês escreveu no seu site que esta primeira incursão na música iria ajudá-lo a lidar com a detenção de 81 dias em 2011. “Qualquer pessoa que tenha passado por um trauma parecido fica com marcas, a raiva e os sentimentos são difíceis de libertar e eu estou a usar as imagens e o som para ultrapassar esse medo. Enquanto artista, o meu dever é encontrar uma forma de o fazer”.
Em 2011, Weiwei foi apenas um de muitos dissidentes presos na China, um país onde existe uma “ameaça louca e condições desumanas”, disse ao jornal inglês. Alguns activistas chineses sublinharam então que a detenção de Weiwei se inseria numa campanha de repressão contra a dissidência chinesa, iniciada em Outubro de 2011, quando se anunciou o Prémio Nobel da Paz de 2010 para Liu Xiaobo.
O videoclip do single resultou de uma colaboração com o director de fotografia Christopher Doyle, conhecido pelo seu trabalho em Disponível para Amar (2000) e 2046 (2004), do realizador Wong Kar-Wai, e Ondine (2009), de Neil Jordan.
Segundo o artista o chinês, o vídeo é uma recriação precisa e detalhada da prisão em que esteve. Todos os detalhes da cela foram reconstruídos e os próprios uniformes dos militares foram feitos à medida. “Enquanto estive detido, memorizei cada pormenor do quarto porque não tinha mais nada para fazer e acreditava plenamente que a história seria contada por ser tão incrível. A canção e este vídeo são as melhores formas de representar essa experiência”, escreveu Weiwei no comunicado de imprensa publicado no seu site na quarta-feira.
"Dumbass é um reflexo da luta pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão na China”, lê-se no mesmo comunicado. Alternando entre imagens da cela e fantasias dos militares, o vídeo começa com o artista sentado numa cadeira com um barrete enfiado a cabeça, onde está escrita a palavra “suspeito”. Embora tenha admitido ao Guardian que recordar esses 81 dias tenha sido “muito difícil”, Weiwei considera que a música o ajudou a “ultrapassar o trauma”.
Ai Weiwei foi detido em Abril em 2011 no aeroporto internacional de Pequim, quando se preparava para apanhar um avião para Hong Kong, e durante mais de um mês esteve em paradeiro desconhecido. Segundo contou ao Guardian, a polícia disse-lhe “queres liberdade mas nós vamos fazer-te pagar com a tua vida”. Em Março deste ano, o artista plástico chinês tinha anunciado a sua intenção de lançar um álbum de heavy metal.
Na altura disse ao International Business Times que o álbum, inspirado na Divina Comédia de Dante Alighieri, tinha nove canções de influências variadas. “Algumas são estilo heavy metal, outras são punk e outras mais pop”. Segundo o Guardian, o single Dumbass “não é exactamente Metallica”. Depois de ter anunciado que Divina Comédia iria ser um álbum de heavy metal, Weiwei corrigiu-se. ”Ou seja, é heavy metal chinês, ou talvez heavy metal de Caochangdi [onde o seu estúdio está localizado] ”, reconheceu ao jornal inglês.
Em Divina Comédia, Weiwei escreveu as letras e deu voz às músicas, da autoria do músico de rock Zuoxiao Zuzhou, que tem apoiado as intervenções artísticas e o activismo de Weiwei e que chegou a ser interrogado em 2011 aquando da detenção do amigo.
O artista chinês já está a trabalhar no seu segundo álbum, desta vez com músicas românticas. “São canções de amor – para pessoas que precisam de amor ou que precisam que acreditem nelas, e para as crianças, para o Tibete, para esta terra. Muitas pessoas precisam de amor”.

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