A Santa Sé vai ser um país na Bienal de Veneza

O Vaticano terá pela primeira vez um pavilhão na mais antiga e importante bienal de arte do mundo

A Bienal não divulgou qualquer pormenor sobre a participação do Vaticano AFP/ Paolo Cocco

Há vários anos que o cardeal Gianfraco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, conhecido como o ministério da Cultura do Vaticano, vinha dando passos na direcção de Veneza. Este ano, o seu desejo concretiza-se: o Vaticano, reconhecido como Estado soberano, terá um pavilhão nacional no Arsenal, entre os 88 países que de Junho a Novembro terão representações oficiais na mais importante e antiga bienal de artes plásticas do mundo.

Tal como aconteceu com países como Angola, até esta quinta-feira a Bienal não tinha divulgado qualquer pormenor sobre a participação do Vaticano, que nos materiais de divulgação surge identificado como Santa Sé. Mas, em 2008, numa passagem por Lisboa, Ravasi, que esteve 18 anos à frente da prestigiada Biblioteca Ambrosiana, em Milão, responsável por um acervo de cerca de 30 mil manuscritos, entre os quais o Codex Atlanticus, de Leonardo da Vinci, deu pistas sobre o tipo de artista com que se imagina a estabelecer parcerias.

Em entrevista ao PÚBLICO, quando faltavam três anos para a abdicação de Ratzinger e não era ainda apontado como um potencial sucessor de Bento XVI, Ravasi explicou: “Quero que a grande arte e os grandes artistas, nomes fundamentais da arte contemporânea que não se interessam por temas religiosos, voltem de novo a olhar para lá da fronteira. Será um benefício para nós [Igreja], mas também para eles [artistas], porque perderam grandes temas, grandes símbolos, grandes narrativas.”

Nessa entrevista, o cardeal falou da intenção de criar um comité de selecção e começar a fazer encomendas a artistas já com “alguma sensibilidade”, nomes como Bill Viola, Anish Kapoor e Jannis Kounellis. “Artistas de grande nível que têm já dentro de si o desejo de interrogar-se, mas que não afrontaram ainda temas estritamente religiosos”, explicou.

Ravasi não revelou na altura que o Vaticano queria ter um pavilhão já na edição seguinte de Veneza, em 2009, de preferência ao lado dos 30 pavilhões permanentes que outros tantos países têm nos Giardini, o coração do evento que nasceu em 1895 e que, entretanto, tem vindo a estender-se por toda a cidade. Ravasi começou pouco depois a fazer constar que Paolo Baratta, o presidente da bienal, estaria “muito interessado” na participação do Vaticano.

Este ano concretiza-se. Resta saber como se posicionará a Igreja entre linguagens artísticas potencialmente em choque com os seus princípios e às quais tem feito guerra declarada. Foi o que aconteceu em 2005, precisamente em Veneza. Nesse ano, Pipilloti Rist foi a representante oficial do seu país, a Suíça, que negociou com as autoridades religiosas de Veneza o empréstimo de um antigo espaço de culto dessacralizado, a Igreja de San Stae, edifício setecentista virado para o Grande Canal, uma das artérias principais da cidade, e com decoração, entre outros, de Pietro della Vecchia e de Giambattista Tiepolo.

O governo suíço pagou as obras de recuperação, como contrapartida teria usufruto do espaço entre Junho e Novembro, período de exposição para o qual Rist desenvolveu uma grande instalação intitulada Homo Sapiens Sapiens, que filmou em grande parte no Brasil, nos terrenos de mata atlântica brasileira do Centro de Arte Contemporânea Inhotim, onde a dupla portuguesa João Maria Gusmão e Pedro Paiva também já realizou uma série de filmes.

Homo Sapiens Sapiens, espécie de visão feérica do Éden dividida por múltiplos ecrãs suspensos do tecto, numa referência aos frescos dos tectos de catedrais e igrejas católicas, mergulha nos paradigmas habituais da obra desta artista: um imaginário a pingar cor que nos arrasta para experiências semi-oníricas, frequentemente sensuais.

A instalação foi bem recebida pela crítica, mas não pela Igreja, ofendida pela nudez e o erotismo das mulheres com que Rist povoou a obra, uma espécie de Evas entretidas em repastos de frutos exóticos, sumo e polpa a escorrer pelo corpo.

O público teve metade do tempo previsto para ver este trabalho – só até a Igreja voltar atrás no seu acordo com a Suíça e fechar San Stae.

Mais recentemente, Gerhard Richter, tido como um dos maiores pintores do mundo, fez para a Catedral de Colónia um vitral-mosaico com mais de 11 mil quadrados coloridos e conjugados em padrão abstracto e aleatório, gerado por computador, que aludia a uma espécie de caos divino. A obra acabou por ser denunciada pelo cardeal Joachim Meisner, que disse que a obra deveria estar “numa mesquita ou qualquer outra casa de oração”.

 

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