A rádio e a música portuguesa: um conflito sem fim à vista

A quantidade de música portuguesa que passa na rádio, fixada por lei, não apagou a insatisfação dos músicos portugueses em relação às rádios de cobertura nacional. Não se pode agradar a todos, dizem as rádios

Os músicos portugueses continuam descontentes em relação às playlists das rádios Adriano Miranda

Há semanas, a cantora Teresa Salgueiro, ex-Madredeus, actualmente com carreira a solo, lamentava na sua página do Facebook a "grande dificuldade" que as rádios de cobertura nacional revelavam na passagem do seu álbum O Mistério. O assunto não é novo. Há muito que músicos portugueses sentem que as rádios deveriam ter um papel mais activo na divulgação da música portuguesa e nem mesmo a imposição de quotas obrigatórias parece ter alterado esse sentimento.

"As leis não resolvem tudo", diz-nos Teresa Salgueiro, a questão é também cultural: "O que é preciso é bom senso. A rádio tem um papel cultural importante. O que existe é uma falta de amor pela música, pelas artes em geral, e pela cultura que se faz em Portugal."

Zé Pedro (Xutos & Pontapés) também é da opinião de que, mais do que leis, tem que haver outra mentalidade para os "responsáveis pelas playlists de rádio incluírem mais música portuguesa." Paulo Furtado (Legendary Tigerman e WrayGunn), por sua vez, diz sentir que as rádios de cobertura nacional são muito fechadas. "A sensação que existia de se descobrir coisas novas e importantes perdeu-se, o que faz desinteressar as gerações mais novas. É impossível viver-se apenas de glórias do passado, até porque elas um dia vão acabar, se não existir uma aposta na renovação."

Do lado das rádios, relativiza-se a questão. O director de programas da RFM, António Mendes, diz que "haverá sempre gente insatisfeita. A filtragem é inevitável, seja nas rádios, nas editoras, ou nas lojas de discos", enquanto o responsável pela escolha musical das rádios públicas Antena 1 e Antena 3, José Marino, adverte que a Antena 1 passa mais de 90% de música portuguesa (apesar da lei estipular um mínimo de 60%), enquanto a Antena 3 passa mais de 40% (quando a lei estipula um mínimo de 25%).

Nos últimos anos surgiram cada vez mais rádios especializadas e a Internet revolucionou a forma como se comunica e consome música, mas essa diversidade de canais não anula o papel fundamental da rádio, segundo os músicos. "A rádio tem menos impacto hoje, mas continua a ser um canal essencial", defende João Paulo Feliciano, artista, músico dos Real Combo Lisbonense e responsável pela editora Pataca. "O que acontece hoje é que as rádios nacionais não têm em conta aquilo que se está a fazer à sua volta e que as pessoas estão disponíveis para ouvir e que precisariam que lhes chegasse." Provavelmente nunca se fez tanta música em Portugal como hoje e em simultâneo parece existir uma renovada apetência para consumir música nova portuguesa, principalmente entre gerações mais recentes. É a esse contexto que Feliciano se refere. "Há uma disponibilidade para ouvir música portuguesa hoje que não se sentia há 15 ou 20 anos e as rádios têm sido cegas em relação ao que se faz."

Zé Pedro vai mais longe: "O público não só está mais disposto a ouvir música portuguesa, como ela traz mais audiências." Também da parte das editoras existe a noção que a rádio continua a deter um capital de importância junto dos consumidores, principalmente de quem cresceu a ouvi-la, mesmo que a Internet tenha alterado hábitos, principalmente entre novas gerações. A dependência em relação à rádio, de consumidores ou músicos, é menor por esse facto, embora o A&R da editora Universal, Tiago Palma, afirme: "A rádio é tão ou mais importante do que há uns anos, principalmente junto de um público mais maduro que não lida com a Internet diariamente, acedendo à música na rádio, em casa ou no carro."

A Internet é importante no levantamento de novidades, mas a rádio tem um papel importante na manutenção e massificação de fenómenos e sucessos. Para o músico Paulo Furtado (Legendary Tigerman, WrayGunn), as plataformas da Internet não substituem a rádio na divulgação. "É um mecanismo muito útil para as bandas, principalmente para as que estão a começar, mas não me parece que tenham muita eficácia", afirma. Na sua visão, o principal problema das rádios nacionais é de diversidade: "90% da música portuguesa não passa. Há um afunilamento no que se ouve."

Teresa Salgueiro tem opinião semelhante. "Sinto falta de ouvir alguns artistas portugueses. Alguns passam, mas são sempre as mesmas músicas. Há pouca diversidade. Artistas como o Fausto, o Carlos Paredes, o Zeca Afonso, a própria Amália não passam nas rádios nacionais. É triste que quem define os critérios de passagem da música não o veja."

Do que todos parecem conscientes é que há que distinguir entre as rádios de cobertura nacional - e entre essas, as de serviço público (Antena 1, 2 e 3) e as privadas - e as especializadas, locais ou universitárias. É principalmente em relação às rádios nacionais, e aos seus critérios, que as críticas se fazem sentir.

"Somos uma rádio pop-rock mainstream e a música portuguesa que passamos tem de se inserir nesse contexto", defende António Mendes. "Por isso temos uma lista de música portuguesa muito grande, onde tocamos Xutos & Pontapés ou Rui Veloso, até coisas mais recentes como os Som Som. Mas é evidente que não podemos passar tudo. Há estilos que não fazem sentido na RFM."

"Numa rádio não cabe tudo, isso é impossível", diz também José Mariño. Qquando se quer agradar a todos, não se agrada a ninguém, por isso cada rádio tem a sua personalidade. Quando estou a escolher música, e a pensar incluir esta ou aquela canção numa playlist, penso se encaixa na sonoridade da rádio."

Ou seja, a quantidade de música portuguesa que se ouve na rádio, imposta por lei, não trouxe consigo, segundo os músicos, um acréscimo de diversidade. As rádios, por sua vez, argumentam que têm uma identidade que não é desejável perder. Tiago Palma diz que é um equilibro instável, difícil de alcançar. "É difícil haver um critério totalmente objectivo. Os programadores é que decidem se a nossa música se enquadra. Os nossos artistas "alternativos" tocam em rádios mais "alternativas", os mais mainstream passam em rádios mais mainstream e os de fado ou de raiz portuguesa acabam por ir para a Antena 1 ou para a rádio Amália".

Como é que se sai deste impasse? Ninguém tem uma resposta clara, mas todos têm claro que não é com mais leis. Garantir a ambicionada abrangência e qualidade, principalmente entre as rádios generalistas de âmbito nacional, passa pela sensibilidade, bom senso e formação dos diversos intervenientes - com destaque para quem programa - mas sempre com a noção de que será impossível agradar a toda a gente. Quando muito, será possível aperfeiçoar e satisfazer um número cada vez maior de pessoas, entre músicos, radialistas e público consumidor. com João Xará

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