A primeira vez é de ouro

"Rafa", de João Salaviza, vai ser exibido hoje DR

Na Culturgest, hoje, às 21h30, conjuga-se o "era uma vez" no presente. Depois de “Arena” (2009) e “Cerro Negro” (2011), eis “Rafa”, de João Salaviza, Urso de Ouro de Berlim (2012) a concluir uma espécie de trilogia de "curtas" claustrofóbicas, belíssimas: percursos iniciáticos, da escuridão para a luz, mas sempre experiências de implacabilidade.

Um universo em formação, mas já decididamente angustiado. Eis uma sessão para salivar: “Rafa” e depois “Nana”, de Valerie Massadian. Nesse momento de os apanhar quando estão ainda a descobrir a matéria de que os seus sonhos são feitos, “Nana” é criança com autoridade - obriga a câmara a colocar-se à sua altura.

Estreia na longa-metragem de uma fotógrafa e "modelo" para Nan Goldin, é uma aventura pelos bosques da infância, território já com pérolas (assim de repente: Truffaut, Kiarostami ou Panahi, Doillon, “A Noite do Caçador”, de Laughton, “Será Que Vai Nevar no Natal”, de Sandrine Veysset...) mas que Massadian volta a tornar precioso - para a crueldade.

Todd Solondz, o outsider, anda há anos à volta do mesmo. Tendo pensado desistir, após as dificuldades do catatónico “Life During Wartime”, colocou-se o desafio de continuar em movimento. “Dark Horse” (Cinema Londres, 24h) teria de ser diferente. Desta vez, disse, seria um filme sem violação, sem pedofilia, sem masturbação. É verdade, não é “Felicidade”.

É uma possibilidade de dar outras possibilidades às personagens. Nunca se sabendo onde se está, é a tentativa de chegar a um (outro) ponto justo: abrindo-se ao interior e à melancolia das personagens. O "dark horse" do título é Abe, homem feito mas agarrado às colecções de infância. E há Miranda, agarrada a antidepressivos. Podia(m) ser mais Solondz?

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