Entrevista

“A literatura salva-nos do pessimismo do quotidiano”

Barzakh é o nome da editora do argelino Sofiane Hadjadj que conta o seu país através dos livros.

Rui Gaudêncio

Sofiane Hadjadj veio a Lisboa falar de livros – dos que escreve e dos que edita na Argélia – numa conferência do programa Próximo Futuro da Fundação Calouste Gulbenkian sobre “O tratamento dado à informação sobre África pelos media”.

Deu à sua intervenção, no sábado a tarde, o nome da editora que em 2000 fundou com a sua mulher Selma Hellal: “Barzakh”, o que em árabe significa “entre dois”. “Entre dois” mundos? Ou entre duas ou múltiplas visões do que pode ser a verdade do mundo? É quando fala da sabedoria de não nos fecharmos numa só verdade que mais se entusiasma. E quando conta o seu país através dos livros. Sofiane Hadjadj, arquitecto de formação, é mais conhecido por ser o editor de grandes nomes da literatura argelina. Mas também ele é autor de livros como Ce n’est pas moi ou Un si parfait jardin.

Disse em tempos que a esquizofrenia era uma metáfora perfeita para “o ofício de viver” na Argélia. Ainda pensa assim?

A situação caótica em que vivemos impõe-nos que sejamos, ao mesmo tempo, muito optimistas e muito pessimistas. São esses dois sentimentos que nos atravessam como argelinos, e a mim enquanto editor, escritor e cidadão. Mas essa esquizofrenia está também relacionada com as identidades argelinas. Somos árabes, mas também africanos, do Mediterrâneo, muçulmanos, berberes…Em cada argelino, há pelo menos duas identidades. É pois para mim muito interessante a obra de Kafka ou de Pessoa. Interessa-me, em ambos, essa possibilidade de identidades múltiplas. E o que é interessante nos dois autores é ver que a literatura pode salvar-nos de tudo, do pessimismo do quotidiano, dessa tentação da derrota e de nos dizermos todos os dias que tudo acabou.

No texto de apresentação da sua conferência na Gulbenkian, interroga-se sobre a utilidade de publicar livros na Argélia. Porquê?

É uma interrogação de todos os dias, num país onde a violência está muito presente. Já não é a violência da guerra da independência, contra a França, ou da guerra civil entre os militares e os extremistas islâmicos da década negra dos anos de 1990. Mas é a violência entre o poder político e os cidadãos, ou entre os homens e as mulheres, numa sociedade machista. Quando não existe nenhuma sintonia com os políticos, há violência. Neste contexto, quando olhamos para o papel que desempenham activistas e militantes, questionamo-nos sobre a utilidade dos livros. Nos últimos dois anos, com as Primaveras Árabes, e com tudo o que se passa na Europa – porque existe uma história comum –, os escritores interrogam-se sobre que histórias contar hoje. O mundo evoluiu e não se podem contar as mesmas histórias que se contavam há cinco, 10 ou 20 anos.

Que novas histórias é que as mudanças no mundo e na Argélia suscitam?

São histórias sem heróis. Durante muito tempo, na literatura e no cinema argelinos, havia heróis. Eram os homens que tinham feito a independência. Mas a violência islamista dos anos de 1990 produziu um caos interior na nossa psicologia. Houve uma perda de referências. A violência afectou-nos muito. Foi a primeira vez que o mundo islâmico assistiu a uma violência tal, associada a grupos islâmicos. Perguntávamo-nos se era isso o islão. E como podia o islão autorizar pessoas a pôr bombas e a degolar outras, a matar crianças, velhos e mulheres grávidas. Os heróis que tinham feito a guerra da independência deixaram de ser modelos para nós, como se tudo fosse uma grande mentira.

A ficção já não olha tanto para a História, a realidade passada?

Muitos livros falam da guerra da independência e do extremismo dos anos de 1990. Mas hoje a ficção volta-se mais para personagens mergulhadas no seu quotidiano. Eu próprio, nos meus livros, quero contar pequenas histórias, minúsculas, intimas. Já não queremos grandes histórias em que cada romance se transforma numa metáfora da Argélia. Este é o momento de contarmos histórias complexas. Não devemos terminar um romance e pensar que compreendemos tudo, que tal personagem é o herói e o outro é o vilão, que há o bem e o mal. Devemos fechar um livro a dizer que a realidade é muito complexa. A literatura reside na complexidade, e mais ainda, para mim, na ambiguidade.

Falou do fosso entre os políticos e as pessoas. Como explica então que não tenha havido na Argélia uma Primavera Árabe como na Tunísia ou no Egipto?

É verdade que há um desejo de mudança na Argélia, mas quando viram o que se passou na Tunísia ou no Egipto, as pessoas na Argélia tiveram medo da violência. Nós conhecemos a violência, nós conhecemos a morte, a guerra civil. Nenhum outro país árabe tinha até então conhecido tal violência. 

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