A angústia do melómano no momento de escolher no Optimus Primavera Sound

Os Beach House, que apresentarão o recente Bloom, são uma das bandas mais aguardadas no festival Foto: DR

The Walkmen ou Beach House? Flaming Lips ou Black Lips? O Optimus Primavera Sound que se inicia hoje no Parque da Cidade, no Porto, obriga-nos a escolher. Elaboremos um percurso e sigamo-lo. Com firmeza.

O Optimus Primavera Sound, já o escrevemos, é um festival de escolhas. Tanto para ver (que felicidade!) e tão pouco tempo (ninguém disse que ia ser fácil). Para evitar que a esquizofrenia se instale, há que ser firme e não vacilar. Ver 30 minutos de cada concerto para os tentar ver todos só aumentará a sensação de que, vendo tudo, não vimos nada. Elaboremos um percurso e façamos por segui-lo. Estejamos preparados para nos separarmos dos nossos entes mais queridos, quando diferenças melómanas se sobrepuserem a laços sentimentais. E confirmemos, no percurso traçado, que a firmeza no não vacilar não deve ser seguida com absoluto rigor. O Optimus Primavera Sound que hoje se inicia no Parque da Cidade, no Porto, é um festival de escolhas, mas também de descoberta.

Hoje, não haverá lugar a tais angústias. Poderemos encerrar o dia com os Rapture, que regressaram o ano passado, em The Grace of Your Love, com música gloriosa para a dança, e deram bom nome, depois dos Bee Gees, ao título How deep is your love - só essa canção valerá o concerto, que começa às 02h no Palco Optimus. Antes deles, lugar às velhas glórias Mercury Rev (Palco Primavera, 00h30) e Suede (às 22h45), aos Atlas Sound de Bradford Cox, dos Deerhunter(Palco Primavera, 19h), ou à pop americana mais britânica da história, a dos The Drums (Palco Primavera, 21h30). Para começar o dia, descubra-se a música vistas largas dos espanhóis Bigott (pop, rock, folk, percussões à Animal Collective), um óptimo exemplo dos bons ventos musicais vindos de Espanha.

A partir de amanhã, a questão complica-se. Se está decidido que veremos os Walkmen para conhecer em palco as canções do novo Heaven, isso quer dizer que perderemos a filigrana pop dos Beach House, que também têm disco novo, Boom (tocam ambos à 01h, respectivamente no Palco Primavera e no Club). Antes disso, iremos lamentar perder os heróis indie Yo La Tengo (Palco Primavera, 19h) para ter a certeza de não perder um segundo que seja da americana em levitação dos The War On Drugs (Palco Club, 19h30). No dia em que Rufus Wainwright apresenta o novo Out of the Game, teremos uma questão de lábios para resolver: a fantasia dos Flaming Lips, célebres pelo aparato visual dos seus concertos, qual circo surrealista (Palco Primavera, 21h30), ou o sempre irresistível êxtase rock"n"roll dos Black Lips (Palco Club, 22h)? Declaramo-nos impotentes: a disposição do dia ditará. Já para final de noite, não haverá dúvidas: os The Oh Sees, banda maior da cena garage de São Francisco, serão nada menos que uma obrigação (Palco ATP, 02h30).

Sábado. Começar em grande: a trip cósmica dos portugueses Gala Drop, um portento ao vivo (Palco Primavera, 17h), e o óptimo rock"n"roll pintalgado de soul dos espanhóis The Right Ons (Palco Optimus, 18h). Um óptimo arranque para o penúltimo dia de festival, que coincide com o primeiro jogo da selecção no Europeu de futebol. O Portugal-Alemanha começa às 19h45 e, dado o interesse que uma grande competição como esta suscita, quem virar costas ao esférico rolando em relvado ucraniano poderá ter o privilégio de assistir ao mais próximo que o Primavera oferecerá de um concerto privado. Três à escolha: Spiritualized (Palco Primavera, 19h), Baxter Dury, filho do pub-rocker Ian dos Blockheads (Palco Club, 19h30) ou Death Cab For Cutie (Palco Optimus, 20h15).

Depois da bola, o regresso à normalidade melómana. Escolher descontrair ao som do r&b futurista de Weeknd (Palco Club, 22h) implicará perdas consideráveis: a de Lee Ranaldo, autor de um muito recomendável álbum a solo, Between the Times and Tides (Palco ATP, 22h), e dos Afghan Whigs de Greg Dulli (Palco Primavera, 21h35). Depois disso, às 23h30, aceleremos ao som da punkalhada deliciosamente imberbe dos Wavves (Palco Club) e não pensemos que os magníficos Dirty Three estão mesmo ali lado (Palco ATP). Para fazer a despedida do Parque da Cidade, o fenómeno indie The xx (Palco Optimus, 01h50). Sem concorrência a assinalar.

Domingo, entre a Casa da Música e o Hard Club, podemos regressar à serenidade inicial. Dois fundadores da Elephant 6, editora de culto da década de 1990: Jeff Mangum, dos Neutral Milk Hotel (Casa da Música, 16h e 22h), e Olivia Tremor Control (mesmo palco, 20h30). A chillwave de James Ferraro (Casa da Música, 22h) e o caleidoscópico Kindness (Hard Club, 00h15).

Fim de festival. Guardamos na memória tudo o que viram os olhos e ouviram os ouvidos. Não pensamos por um segundo em tudo aquilo que, para manter a sanidade, nos obrigámos a perder.

Transportes

A STCP criou uma ligação directa dos Aliados ao Parque da Cidade, que funcionará durante a madrugada (da 1h30 às 5h, amanhã, e das 2h às 7h, nos dias 9 e 10). A linha 200 será prolongada até à Praça Cidade Salvador, após as 17h30.

Os autocarros terão maior capacidade e uma frequência de cinco minutos. Também a linha azul (A) do metro será reforçada, prolongando as suas viagens, que terão uma frequência de 30 minutos, até às 02h, nos próximos três dias, e antecipando a sua abertura para as 05h, nos dias 9 e 10.

Notícia corrigida às 18h03

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