O amor visto por três mulheres diferentes numa perspectiva intemporal é o conceito que une a encenação de Francesco Esposito da trilogia de Verdi. É a única programação lírica conhecida para 2013
A trilogia de Verdi que se estreia hoje, às 20h, no Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), com a primeira récita de Il Trovatore, é por enquanto a única programação conhecida da temporada lírica de 2013.
Após sucessivas indefinições e crescentes cortes orçamentais, um manto de incógnitas cobre o único teatro de ópera português. Entre as limitadas hipóteses de programação que tinha "planificadas a lápis" antes de saber qual era o orçamento de que dispunha - apenas divulgado em Novembro -, o maestro britânico Martin André, actual director artístico, optou por celebrar os 200 anos do nascimento de Verdi com a conhecida "trilogia popular" , concebida como um projecto global por uma equipa dirigida pelo encenador italiano Francesco Esposito. O elenco inclui cantores portugueses e estrangeiros (sendo alguns deles comuns a mais do que uma ópera), acompanhados pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e pelo Coro do TNSC, sob a direcção do próprio André. Até dia 11 de Maio cada uma das três óperas - Il Trovatore, Rigoletto e La Traviata - terá quatro récitas que se desenrolam numa estrutura cenográfica comum.
"Estamos no ano Verdi e apostei na trilogia em vez de encenações soltas", disse André durante um dos ensaios. "São três obras-primas muito queridas do público, compostas num curto período de tempo, entre 1851 e 1853, e representam o salto entre a juventude e a maturidade no percurso de Verdi", explica. "Mesmo com um orçamento que não é muito generoso, é um grande acontecimento para o teatro mas também na minha vida artística. Ter a possibilidade de fazer a trilogia com o elenco escolhido por mim e como um projecto único é magnífico."
Desde que assumiu o cargo de director artístico do TNSC em Abril de 2013 não se cansou de dizer que Verdi, Mozart e Puccini deveriam ser presenças obrigatórias em cada temporada, mas parte dessas e de outras ideias acabaria por ficar na gaveta. Nalguns casos chegaram a estar agendadas, como sucedeu com a Madama Butterfly, de Puccini, mas foram canceladas por questões financeiras. Sobre programações futuras, André não respondeu, já que o seu contrato termina em breve.
A escolha de Esposito deve-se à sua grande experiência no campo do repertório verdiano. Martin André lançou-lhe este desafio há dois anos e seguiu-se um processo de diálogo e colaboração. "A trilogia era um sonho há muito tempo. Fomos discutindo ideias até chegar a este ponto", explica, mostrando um dossier com esboços e fotos de cenografias.
Esposito já encenou La Traviata nove vezes, o Rigoletto doze e Il Trovatore oito vezes, mas até agora nunca tinha trabalhado a trilogia como um todo. "Pensei num projecto único - na linha da trilogia do [realizador Krzysztof] Kieslowski - realizando três encenações diferentes que tratam um único tema: o tema do amor visto pelos olhos de uma mulher", explicou Francesco Esposito. "São olhares diferentes porque o amor não é sempre igual. Há o amor poético de Violeta na Traviata, o amor-paixão de Leonora em Il Trovatore e o amor ligeiro, quase infantil, de Gilda no Rigoletto. Para mim a trilogia é como um único espectáculo de nove actos."
As cores do amor
Tal como acontece na trilogia de Kieslowski, que usou o azul, o branco e o vermelho, o amor não é visto com a mesma cor. "Usei verde, branco e vermelho, que são as cores da bandeira italiana", diz Esposito. "Para o Trovatore escolhi o verde, pois significa a esperança de um amor que nunca chegará; na Traviata o branco, pois é um amor poético que leva Violeta a morrer na solidão, mas acreditando contudo que o amor possa ainda existir; e no Rigoletto o vermelho, pois trata-se de um amor-paixão. Em todos os casos chega-se ao mesmo desfecho: a morte da protagonista."
Francesco Esposito resolveu fazer uma abordagem contemporânea da acção. Sobre o facto de as mulheres do nosso tempo serem bem diferentes das heroínas de Verdi, Esposito refere que "as emoções são sempre as mesmas desde Adão e Eva, mesmo que sejam lidas e elaboradas de modo distinto." Como tal, "a beleza do teatro, seja do teatro declamado, seja da ópera, é a de colocar em cena emoções intemporais." Esposito criou um dispositivo cénico fixo no qual são incorporados elementos cenográficos e adereços diferentes em cada ópera. "Em Il Trovatore surgem palácios arruinados por uma guerra, La Traviata retoma a ideia do teatro dentro do teatro - que não é uma ideia nova, tem a ver com o palco de Violeta, onde ela exibe a sua vida e todos podem observá-la - e o Rigoletto é ambientado numa bela casa, que podia ser em Lisboa, Nova Iorque ou Roma."
"O teatro serve para comunicar emoções, para transmitir a vontade de pensar, de refletir e de crescer. Isto não foi inventado por mim, mas por um senhor chamado Ésquilo."
Esposito facilmente se esquece que está a trabalhar com cantores. "Penso sempre que são actores. Dou-lhes estímulos para uma pesquisa interior das suas próprias emoções. Um encenador deve ser uma espécie de psicólogo e conseguir que todos os cantores possam encontrar o seu próprio eu e transferi-lo para o eu da sua personagem. Em grandes linhas, é um pouco o método de Stanislavski", diz. "Não deixamos nada ao acaso e tudo é cuidado nos mínimos detalhes. Depois depende dos que são mais dotados a jogar com as emoções. Tal como na vida, também é assim no palco."

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