Marine Vacth, um rosto e um corpo para Cannes 2013

O cineasta François Ozon dá-lhe pela primeira vez um papel principal, o de uma adolescente de 17 anos que se prostitui.

Um rosto e um corpo, já, para Cannes 2013: Marine Vacth. O cineasta François Ozon dá-lhe pela primeira vez um papel principal, o de uma adolescente de 17 anos que, em quatro estações e outras tantas canções de Françoise Hardy, se prostitui.

Marine é para alguns a pessoa favorita deste início de festival. Tem 22 anos, foi modelo, e esse património, que talvez seja a consciência de um efeito a produzir, permite-lhe arriscar e ser dominadora nesta personagem de uma adolescente que se prostitui, não por dinheiro, não para pagar os estudos, mas, talvez, talvez seja isso, para se descobrir.

Jeune et Jolie (competição) é perturbante, coisa que raramente se pode dizer de um filme de François Ozon - talvez não se possa dizê-lo desde 2001, desde Sous le Sable. A razão fundamental é que, apesar de a personagem que Marine interpreta ir às tantas ao encontro de psicanalista, e não haver ironia alguma do realizador nisso, nada explicar cabalmente as razões desta forma de Isabelle (nome da personagem) querer vivre sa vie, como era o título do filme de Godard que Ozon viu. Talvez explique mais - por dissociação - a forma como Jeune et Jolie vai sendo pontuado pelas cápsulas amorosas de Françoise Hardy. E o que interessa, no fundo, é a forma como Isabelle no percurso até aos seus clientes vai progredindo da escuridão para a luz - planos que Ozon repete, ela a subir escadas rolantes.

Até chegar a esse momento de desabrochamento, o plano final de Jeune et Jolie, novamente à luz, depois de Isabelle se ter cruzado com Charlotte Rampling - uma aparição, Charlotte, que aqui não se deve explicar. Rampling era a mulher de Sous le Sable, talvez o filme que mais trabalha contra o miniatural para que tende o cinema de Ozon. Charlotte como que abençoa Isabelle (e, já agora, Marine Vacht). Isso também diz alguma coisa sobre Jeune et Jolie.

O que sobra do humano

O mexicano Amat Escalante, numa entrevista a propósito de Heli, a sua terceira longa-metragem - depois de Sangre (2005) e de Los Bastardos (2008) -, que é a primeira a competir em Cannes, demarcou-se do suspense hitchcockiano. Disse: "Hitchcock tinha o hábito de dizer que as coisas são mais fortes quando as escondemos. Eu quis ver, ao contrário, o que acontece quando as mostro frontalmente."

Essa experiência da violência foi, em 2009, a viagem de Kinatay, do filipino Brillante Mendoza, exibido na mesma sala em Cannes, aliás, em que foi projectado Heli - foi um filme memorável, que receberia o prémio de realização nesse ano e que esteve na origem de uma sessão acidentada em que espectadores fizeram questão de rejeitar o que viam abandonando a sala com o maior ruído possível.

O filme de Escalante, como o de Mendoza, vai até ao fim (de cenas de tortura, por exemplo) para ver o que acontece a quem vive exposto ao medo e à violência, a ver o que acontece ao humano, como se regenera ou o que sobra dele. O medo também é o do espectador, quando começa a tactear que numa situação extrema os protocolos humanos são dramaticamente alterados e violentados, mas - é esse o susto - há sempre forma de continuar, alterado e violentado.

Em Heli há uma família mexicana que dá por si envolvida, inocentemente, numa engrenagem de corrupção policial e droga, com enforcamentos e decapitações, as imagens que fazem o dia-a-dia da TV e por isso das famílias mexicanas, segundo Escalante - e diz também isso outro cineasta mexicano, Carlos Reygadas, que no seu último filme, Post Tenebras Lux, mostra um homem a arrancar a própria cabeça, catarse do medo que consome o ventre das famílias mexicanas (Reygadas é co-produtor de Heli, aliás).

A memória do visceral filme de Mendoza a acompanhar a viagem de Escalante é confortável para o espectador: sente que já esteve ali - talvez por isso não se tivessem produzido o mesmo tipo de reacções de indignação. Mas o conforto não é bom para Heli. Que muitas vezes é assaltado pelo reconhecimento de outro dispositivo, o da relação dos corpos de actores não-profissionais como "modelos" - mas a versão bressoniana tal como Bruno Dumont a pratica. Essa forma extática de olhar, para além de resguardar o espectador, distancia-o, como se observasse uma experiência em curso. Protestamos, então, por não termos sido assaltados como deve ser. 

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