O INE divulgou sexta-feira um estudo que é um retrato numérico de Portugal na sua relação com as artes e a cultura. Um país em que as famílias investem, em média, mil euros em lazer e cultura por ano
Em 2011, as actividades culturais e criativas empregaram em Portugal cerca de 77 mil pessoas, representando 1,6% da totalidade da população empregada, diz um estudo do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgado ontem.
Também segundo dados do INE, entre 2000 e 2011 este sector passou a empregar mais 22 mil pessoas, mas poderá ter perdido mais de quatro mil postos de trabalho num só ano, a partir de 2010, quando atingiu um pico de empregabilidade - 81,1 mil trabalhadores.
Porém, estes últimos são dados cuja dimensão é necessário relativizar: os técnicos do instituto ressalvam que em 2011 houve uma "quebra de uma série de dados" que "inviabiliza comparações directas" com o ano anterior.
Em qualquer dos casos, através das mais de 53 mil empresas a operar no sector, as actividades culturais e criativas terão gerado um volume de negócios de 5,6 mil milhões de euros.
Segundo o estudo, entre as empresas que mais facturaram estão, em primeiro lugar, as agências de publicidade, que fizeram 20,6% do total do sector. Na base da pirâmide estão as empresas ligadas às artes do espectáculo, com 4,9% do volume total de negócios. Entre os dois extremos estão as empresas ligadas ao comércio a retalho de publicações como jornais e revistas (13,4% do total), as ligadas à televisão (10% do total), à edição de publicações periódicas (7,2%) e à edição de livros (6,5%) e jornais (5%).
Cobrindo exaustivamente o sector, o estudo levanta dados sobre as actividades e públicos de espaços como museus, galerias de arte e salas de espectáculos, sobre as tendências de consumo de bens culturais pelas famílias, a evolução dos preços e do comércio internacional desses bens e sobre os financiamentos públicos a actividades culturais, tanto através do poder central como local. É um retrato do país, no ângulo específico da sua relação com as artes e a cultura, em geral. Um retrato que nos diz, por exemplo, que em 2011 cada agregado familiar nacional investiu, em média, cerca de mil euros em "actividades de lazer e cultura", representando este investimento cerca 5,3% dos seus gastos totais.
O maior investimento, diz o estudo, foi feito por mulheres entre os 30 e os 44 anos. E, segundo os técnicos do instituto, esta realidade reflecte-se também nos gastos, sempre maiores, dos agregados familiares cujo indivíduo de referência - aquele que tem maior rendimento - é uma mulher nesta faixa etária.
É uma tendência relativamente recente: num inquérito relativo a 2005/2006 "foram as famílias em que o indivíduo de referência era um homem entre os 45 e os 64 anos que apresentavam o valor de despesa média mais elevado", dizem os técnicos.
Mais arte, menos história
Na ideia já vasta de "lazer e cultura", o estudo junta ainda alíneas muito diversificadas, incluindo a compra de equipamentos audiovisuais e viagens turísticas. Mas esclarece que os eventos desportivos estão incluídos nos "serviços recreativos e culturais" - aqueles em que os portugueses mais gastaram: 334 euros. Os livros, jornais e outros materiais impressos representaram um investimento de 309 euros por cada agregado, sabendo que o preço destes materiais teve um aumento de 1,8% face a 2010.
O estudo não diz quanto gastou cada um desses agregados em idas a museus, por exemplo. Mas esclarece quantos visitantes tiveram esses espaços: os museus de arte, que foram os mais visitados, registaram algo mais de três milhões de entradas; em segundo lugar vêm os museus de arqueologia, com algo mais de 498 mil visitantes, seguidos de outro tipo de museus especializados (ciências e história natural, etnografia e antropologia, por exemplo).
Já em idas ao cinema, os portugueses terão investido cerca de 80 milhões de euros. De Janeiro a Dezembro de 2011 terão sido exibidos no país 790 filmes, dos quais 277 em estreia. Tiveram 15,7 milhões de espectadores, o que, segundo o estudo, representa um decréscimo de 5,2% face a 2010 - já nas receitas de bilheteira o decréscimo foi inferior, 2,9%, disparidade talvez justificada pelo valor dos bilhetes, que subiu, nomeadamente para as cada vez mais sessões em 3D.
América vs. Europa vs. CPLP
Ainda que a maior presença em salas seja de filmes co-produzidos por vários países (38,4%), o grande domínio dos Estados Unidos, neste sector, mantém-se: os 27,2% de filmes norte-americanos que passaram em Portugal dominaram 66,2% das sessões e conseguiram 69% dos espectadores e das receitas de bilheteira. Os 237 filmes europeus exibidos tiveram apenas 3,9% das sessões e 3% do total de espectadores e receitas. E os 85 filmes portugueses exibidos tiveram 0,6% das sessões, conseguindo 0,5% dos espectadores e 0,4% das receitas.
É uma tendência de importação que não se verificou noutras áreas, em que chegou a haver uma hegemonia de 97% de bens vindos de outros países da União Europeia - foi o que aconteceu na importação de livros, jornais e revistas.
Em termos genéricos, a balança nacional das importações e exportações pendeu fundo para o lado das importações: em 2011, Portugal importou quase 175 milhões de euros no conjunto alargado dos bens tidos como culturais, exportando apenas 64,7 milhões.
Exportámos sobretudo livros, brochuras e publicações semelhantes (44,1 milhões de euros), e depois objectos de arte, de colecção e antiguidades (9,4 milhões). Estes bens foram, sobretudo, para os PALOP, os países africanos de língua portuguesa (55,3%), para a União Europeia (30,4%) e o Brasil (8,6%), destinos que representaram 94,4% das exportações do sector.
Segundo os técnicos do INE, o valor das saídas para o Brasil "tem tido tendência crescente" no sector editorial. Chegou em 2011 aos 8,6% do total de exportações, subindo de algo mais de três milhões euros em 2009 para perto de quatro milhões em 2011. Nas exportações do mesmo tipo para os PALOP houve, porém, uma quebra nos últimos anos: em 2011, representaram quase 22,5 milhões de euros, tendo subido de 21,9 milhões em 2010; em 2009, contudo, estavam nos 23,2 milhões.
Um universo muito distinto: o dos espectáculos ao vivo. Sem surpresa, os concertos de música rock e pop foram, na música, os que mais público e receitas fizeram. Com 1,5 milhões de espectadores, geraram 23,7 milhões de euros em receitas, correspondendo a 42,5% do total de receitas de todos os espectáculos estudados. Mas o teatro, que teve o maior número de sessões de espectáculos - 47,1% do total -, teve exactamente o mesmo número de espectadores. Registou, contudo, receitas muito inferiores, pouco mais de um terço das geradas pelos concertos de rock e pop. Estes últimos têm os segundos bilhetes mais caros do espectro dos espectáculos (uma média de 28,6 euros), apenas ultrapassados pelos bilhetes de ópera (29,5 euros).
Precisamente a ópera, mas também a dança clássica e o fado, estão entre os espectáculos que menos público fizeram: 298,2 mil espectadores, em conjunto.
A última parte do estudo debruça-se sobre o financiamento público a actividades culturais: em 2011 terá sido de 215,5 milhões de euros a despesa consolidada do então Ministério da Cultura, valor representou um decréscimo de 8,8% em relação a 2010. Isto, do lado do poder central. Já o investimento do poder local terá sido de 406,8 milhões, menos 6,2% do que no ano anterior.
Por região, foram os Açores a reduzir mais o seu investimento (-23,6%), seguidos do Algarve (-20,8%), Lisboa (-16,1%), Alentejo (-13,4%) e Madeira (-1,9%). Pelo contrário, as autarquias do Norte e do centro reforçaram os seus investimentos no sector (mais 4,9% e 2,5%, respectivamente).
O grosso do investimento autárquico foi em áreas como o património (19,7%), publicações e literatura (15,4%), actividades socioculturais (14,7%), os próprios recintos culturais (12,3%) e a música (7,7%). Com o menor peso nas despesas surgem as artes cénicas, plásticas, o cinema, fotografia e a rádio - em conjunto, apenas 8,1% do total do investimento autárquico em cultura. com Isabel Coutinho

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