Wagner em privado, discos e DVD para conhecer o génio

As escolhas do crítico de música Rui Pereira.

Richard Wagner nasceu há 200 anos, no dia 22 de Maio de 1813. De entre todos os compositores célebres da história da música, é aquele cujos adeptos são mais fervorosos. Há melómanos que pertencem a "Sociedades Wagner", verdadeiros clubes de associados que acompanham produções operáticas em todo o mundo e que coleccionam todo o tipo de documentação alusiva ao compositor, muito particularmente discografia. Para muitos é mesmo uma forma de vida, que nada tem de estranha. A razão de tal fenómeno prende-se não só com a música, mas, sobretudo, com a teatralidade dos dramas maiores do que a vida. Porque falar de Wagner não é falar de música, mas sim de ópera.

A melhor forma de conhecer o universo wagneriano será sempre uma peregrinação a Bayreuth, o teatro concebido pelo próprio compositor para a interpretação das suas óperas e, ainda hoje, a meca dos seus adeptos. Mas uma ida ao Festival de Bayreuth, fundado em 1876, não é uma tarefa fácil de cumprir, tendo que se planear a viagem e compra de ingressos com quase uma década de antecedência. Estamos, pois, a falar de um mundo um pouco à parte.

Jantar com melómanos de Wagner, por exemplo, é uma experiência muito particular. Falam dos personagens das óperas como se fossem pessoas reais, comparam os intérpretes e as produções saltando de soprano em soprano, elogiando maestros e ofendendo-se com encenadores. E sabem detalhes impressionantes sobre datas, contratos, gaffes e guarda-roupa. Mas, quando discutem as suas gravações preferidas, fica instalada a confusão. Só da ópera Tristão e Isolda, com uma duração aproximada de quatro horas, há mais de 50 gravações.

Tentar escolher a melhor versão de uma ópera de Wagner é, pois, uma tarefa ingrata, se não mesmo impossível. Encontrar uma discografia de referência, entre os CD e DVD disponíveis no mercado, também não é fácil. Até porque sai muito caro.

Deixamos ficar algumas sugestões que, mais do que pretenderem eleger a melhor versão de cada ópera, ambicionam dar a escolher visões distintas e com reconhecida qualidade para uma iniciação ao fabuloso mundo de Wagner, através de uma selecção de algumas das suas obras-primas.

Os Mestres Cantores de Nuremberga

CD - EMI 40788
Herbert von Karajan, direcção

DVD - DG 0730949
James Levine, direcção

Um concurso de canto em que o vencedor recebe como troféu uma bela jovem para casar é um argumento que, no mínimo, promete demonstrar a arte de bem cantar. O maestro Otto Klemperer ofereceu toda a grandiosidade cerimonial ao drama à frente da orquestra londrina Philharmonia (1960). Rafael Kubelik tem outra das versões mais aclamadas (1967), e a discografia parece, também ela, uma espécie de Mestres Maestros com Furtwangler (1949), Eugen Jochum (1967), Karl Böhm (1979) ou Sawallisch (1993) na disputa da noiva. Herbert von Karajan deixou-nos duas versões lendárias: uma na reabertura de Bayreuth no pós-guerra, em 1951, e aquela que é considerada a versão de maior detalhe e variedade de colorido dos Mestres Cantores, gravada para a EMI em 1970 e disponível no mercado em quatro CD.

Em versão cénica, a produção do Met de Nova Iorque é verdadeiramente gloriosa, do ponto de vista visual, e sob a direcção musical de James Levine proporciona uma experiência inesquecível.

Lohengrin

CD - EMI 567415-2
Rudolph Kempe, direcção

DVD - Decca 0743387
Kent Nagano, direcção

Com mais de 40 gravações comerciais, Lohengrin representa o eterno duelo entre o Bem e o Mal no contexto de um drama medieval. Em CD, a versão de 1964 da EMI conta com a Filarmónica de Viena, sob a direcção musical de Rudolf Kempe, e com as insuperáveis vozes de Jess Thomas (Lohengrin), Elisabeta Grümmer (Elsa), Christa Ludwig (Orturd) e Fischer-Dieskau (Telramund), o que por si só é uma garantia de podermos usufruir de árias belíssimas. O recente papel de Lohengrin interpretado por Jonas Kaufmann, um dos tenores mais aclamados da actualidade, sob a direcção de Kent Nagano, está disponível em DVD numa encenação bem menos consensual de Richard Jones. O tenor é absolutamente convincente ao nível vocal e dramático e justifica a escolha pela sua importância na ópera.

O Navio Fantasma

CD - PR90250
Clemens Krauss, direcção

DVD - DG 04400734433
Wolfgang Sawallisch

Segundo os escritos do próprio Wagner, foi a bordo de um navio e durante uma tempestade, no Verão de 1839, que o compositor teve a ideia de levar à cena uma lenda sobre um barco assombrado que aparecia aos navegantes. O libreto da sua autoria foi baseado em Heinrich Heiner e revê a lenda num contexto de amor extremadamente trágico. Para uma introdução à ópera, num contexto de grande autenticidade para com as indicações cénicas do próprio compositor, a versão de Vasclav Kaslic, sob a direcção de Sawallisch, é uma referência. Um pouco datada, no tipo de representação e filmagem, mas fiel à história.

Uma gravação histórica muito recomendada é a que conta com a voz do extraordinário baixo alemão Hans Hotter, no papel de Holandês, sob a direcção de Clemens Krauss à frente da Orquestra da Ópera de Munique. Foi feita em estúdio, ainda em mono, no ano de 1944, mas está disponível em CD no catálogo da editora austríaca Preiser Records. Tem uma qualidade sonora muito aceitável. Uma interpretação do mesmo baixo gravada ao vivo no Met na década de 50 está disponível na editora Naxos.

Tristão e Isolda

CD - EMI 558006-2
Antonio Pappano, direcção

DVD - DG 0440 073 4321
Daniel Barenboim, direcção


Escrita entre 1857 e 59, estreada em 1865, Tristão e Isolda é possivelmente a ópera mais influente do ponto de vista da inovação musical. O lendário drama de amor conta com gravações parciais desde o início do século XX, mas apenas foi registado na íntegra na década de 1930. A versão com a lendária soprano norueguesa Kirsten Flagstad, sob a direcção de Furtwängler, para a editora EMI (1952), permanece como uma grande referência de consistência interpretativa. Mas a recente gravação (2005) com o Coro e a Orquestra da Royal Opera House, sob a direcção de Antonio Papano, conta com Plácido Domingo no papel de Tristão e com a soprano Nina Stemme como Isolda. É um registo que conquistou a crítica internacional pela superlativa qualidade sonora e pelo crescendo dramático alcançado no 3.º acto, razões bem plausíveis de agradar aos melómanos. Foi feita em estúdio, algo fenomenal nos dias de hoje.

Para quem quiser conhecer o drama como Wagner pretendia, numa versão encenada, poderá optar por duas produções de Bayreuth em DVD. Quer a que foi encenada por Jean-Pierre Ponnelle, com direcção musical de Daniel Barenboim, quer a versão mais recente, e cenicamente arrojada, de Christopher Marthaler, sob a batuta de Peter Schneider (2009), são recomendáveis.

Tannhäuser

DVD - DG 0440 073 4446
Colin Davies, direcção

Tannhäuser conta com um dos mais difíceis papéis do mundo para a voz de tenor e é um verdadeiro turbilhão de emoções. Wagner explora uma vez mais a luta eterna entre o sagrado e profano com a redenção final a acontecer através do amor. E uma vez mais explora as lendas dos mestres cantores. O compositor reúne personagens históricas, tais como os trovadores Eschenbach e Vogelweide, com seres mitológicos, como Vénus, a deusa do amor, em dois mundos: o real no castelo Wartburg e o mitológico no Monte de Vénus. Neste cenário cria uma atmosfera com bailados de grande sensualidade. E tudo isto em duas versões, uma de Dresden e outra de Paris, as quais aparecem muitas vezes misturadas nas gravações. É particularmente difícil encontrar um consenso em torno das gravações de Tannhäuser, sendo as versões dirigidas por Solti, Sawallisch e Barenboim as mais prezadas pela crítica. A de Sinopoli é igualmente muito elogiada pela prestação do tenor Placido Domingo.

Para ficar a conhecer o drama, a versão de Colin Davies para uma produção do Festival de Bayreuth da década de 1970 é equilibrada e oferece uma encenação eficiente com um elenco reputado. Filmada ao vivo, é em todos os aspectos uma produção teatral e não um filme para os tempos modernos, mas a história, essa, é muito bem contada.

Parsifal

CD - Philips 475 7785POR4
Hans Knappertsbusch, direcção

A extraordinária paleta de emoções humanas retratadas em Parsifal, drama incomparável de Wagner, encontra nesta gravação histórica sob a direcção de Hans Knappertsbusch uma versão de referência com um elenco de altíssimo nível, desde logo os dois baixos George London, no papel de Amfortas, e Hans Hotter, no papel de Gurnemanz. É uma gravação ao vivo feita no ano de 1962 na catedral, que é como quem diz, no Festival de Bayreuth. Quatro horas de música ao longo das quais o tenor Jess Thomas vai construindo um Parsifal em crescendo e onde todo o elenco beneficia de uma belíssima captação sonora.

O Anel dos Nibelungos
 

CD - Decca 475 7528
Georg Solti, direcção
 

DVD - DG 0440 073 4057
Pierre Boulez, direcção


Os argumentos predilectos de Wagner são as sagas, os mitos e as lendas de matriz germânica misturados com factos históricos num ambiente naturalista e, simultaneamente, sobrenatural. Foi a Canção dos Nibelungos, uma saga medieval, que Wagner seguiu para o seu mais complexo projecto operático, O Anel dos Nibelungos (1848-1874). Esta tetralogia de óperas foi planeada para se ver e ouvir numa tarde preliminar e três jornadas, de acordo com o encadeamento seguinte: O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses (1874). Escolher a versão ideal do Ring poderia levar a escolher diferentes produções, uma para cada ópera. Mas existe uma gravação que é um marco histórico: a de Georg Solti, registada entre 1958 e 1964, para a editora Decca. É a primeira versão completa do Anel e marcou uma verdadeira revolução técnica na forma de captar o som, de o transformar através da amplificação, da edição e do estéreo, criando efeitos acústicos que transmitem a sensação auditiva de espaço e movimento. O resultado fez o produtor da Decca, John Culshaw, entrar para a história, mas muito do sucesso prende-se com a qualidade da Orquestra Filarmónica de Viena e o rol de cantores, que nem sempre desempenham o mesmo papel, mas são sempre de primeiríssima apanha: A título de exemplo, no Ouro do Reno, contamos com o baixo George London (Wotan) e Kirsten Flagstad (Fricka); na Valquíria, com o baixo Hans Hotter (Wotan) e Christa Ludwig (Fricka). O tenor Wolfgang Windgassen mantém-se no papel de Siegfried e o elenco deste Anel conta ainda com uma notabilíssima prestação do barítono Dietrich Fischer-Dieskau na ópera O Crepúsculo dos Deuses, na opinião de muitos críticos, o momento mais conseguido desta integral que ocupa 14 CD.

Em DVD, a produção de Bayreuth para a celebração do centenário de O Anel, em 1976, contou com a encenação de Patrice Chéreau e a direcção musical de Pierre Boulez. Está disponível em oito DVD. É igualmente um marco histórico, numa versão muito televisiva, que faz da tetralogia uma parábola decadente do declínio do regime capitalista. Musicalmente, é de uma extrema objectividade, resultado ainda das correntes interpretativas da vanguarda do pós-guerra, facto que pode transmitir uma certa frieza aos ouvintes. Ainda assim, uma referência.

Alternativas

Numa discografia e videografia tão extensas, ficam aqui algumas sugestões que, acima de tudo, pretenderam ser mais variadas do que exaustivas. Existem outras óperas de Wagner e muitas outras interpretações. Se achar que óperas de quatro horas é um pouco de mais para a sua introdução ao fabuloso mundo de Wagner, existem outras alternativas, a começar pelos discos com selecções das aberturas dessas obras. Uma boa forma de se iniciar em Wagner é ouvir excertos de árias ou de coros. A Decca, por exemplo, tem um disco com o fabuloso Jonas Kaufmann exclusivamente dedicado a Wagner e prestes a ser lançado no mercado. E, se ainda assim for de mais, divirta-se com a fantástica introdução e análise ao Anel do Nibelungo da autoria de Anna Russell, disponível na Internet a custo zero. Aproveite e deite uma vista de olhos à última produção de As Valquírias do Met de Nova Iorque e fique com uma certeza: quando é objecto de uma boa produção e de uma encenação à altura, não há espectáculo como a ópera.

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