Quarenta horas seguidas de arte só terminam hoje à meia-noite. Bodies in Urban Spaces conseguiu a primeira enchente do evento
Filipe Mariares olha de frente, ao longe, para a Casa de Serralves. Nas suas mãos, uma pintura em aguarela do edifício projectado por Charles Siclis e Marques da Silva começa a tomar forma. A calma termina quando um grupo de velozes performers passa à sua frente a correr, trazendo atrás de si uma multidão. A poucos passos dali, os intérpretes, ao serviço de Willi Dorner, haveriam de se amontoar ao lado de um banco de jardim, imóveis, como se fossem uma rocha que já lá estava. "Ah, estão aqui!", exclamou-se no meio do público.
Antes, estes elásticos bailarinos locais tinham conseguido a primeira enchente de ontem, primeiro dia do 10.º Serralves em Festa, junto à Clareira das Bétulas (com eles, chegou também a chuva, ainda que miudinha), para depois seguir pelo parque, ora encaixando-se entre paredes, ora empilhando-se em tudo o que era canto, porta e vão.
No Serralves em Festa, 40 horas consecutivas de actividades artísticas, o projecto do austríaco Willi Dorner teve lugar num ambiente mais natural do que o que costuma encontrar - e do que aquele que conheceu sexta-feira, no centro da cidade. "O Porto tem muita história, muitos edifícios diferentes, diferentes arquitecturas, algo de que Willi, o coreógrafo, gosta muito", contou ao PÚBLICO Ian Dolan, assistente de coreografia do espectáculo Bodies in Urban Spaces (repete-se hoje às 11h, 15h e 19h). "É muito interessante para o público também, porque vê partes da cidade de uma forma que nunca viu. Tudo o que é preciso é um corpo e eis uma revelação", explica. O espectáculo "é sobre como o espaço urbano e a arquitectura trabalham com o corpo: desafiando, sublinhando ou contradizendo o espaço urbano com o corpo humano".
Na alameda de entrada no Serralves em Festa, o grupo juntou algumas das 18.500 pessoas que passaram até às 18h pelo evento (mais 13% do que em 2012 à mesma hora, segundo a organização), que só termina hoje à meia-noite. No mesmo local, ao início da tarde, Imaginary Friends (co-criação das companhias Whalley Range All Stars e Babok) lançava a confusão e instaurava um terror light: eis um grupo de actores com os seus duplos forrados a serapilheira e respectivas cabeças falsas, criadas à sua imagem e semelhança (hoje há mais: às 12h45 e às 18h). O grupo cantou, bebeu, fumou, estrelou um ovo num maçarico e fez uma escultura de palitos e uma salsicha.
Do violino ao piquenique
Nesta altura, Serralves estava ainda a meio gás, registo do qual saiu devagarinho, talvez por culpa do céu consistentemente cinzento. A tarde prosseguiu em múltiplas frentes.
Houve concertos, como o dos ásperos Aspen (em versão aumentada com o projecto RA), rapaziada barcelense que preza o poder do riff de guitarra; o de The Astroboy, voos celestes numa clareira despovoada; e o da dinamarquesa Maria Diekmann, com o seu violino amplificado a fazer soar um estrilho encantatório pelo museu.
Houve uma bailarina a reagir como uma mola perante o som de um berimbau de boca (Scubi, espectáculo do Ginasiano). Houve teatro em torno de um espectáculo de magia e crianças a brincar num emaranhado de fios coloridos junto a uma zona de oficinas para famílias.
Assim foi o programa oficial. O não oficial está a cargo dos visitantes. Junto ao roseiral, à volta de uma grande toalha, amplamente apetrechada de panelas, garrafas e pratos, um grupo almoçava arroz à lavrador. "Todos os anos trazemos um prato típico", conta Rui Amaral, 46 anos, da Maia, parte deste grupo de várias famílias. Desde há pelo menos quatro anos que convivem desta forma no Serralves em Festa, mesmo na edição chuvosa de 2012. É um evento dentro do evento, dizem: até fizeram para ele um cartaz alternativo.

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