Arte e arquitectura em Lisboa num grande jogo de espelhos

A peça Trago-te em Mim como Uma Ferida, de Rui Chafes, "rasga" a entrada do Paço da Rainha (em cima), que recebe também, na biblioteca, quatro fotografias de Jorge Molder Fotos:

Uma exposição itinerante, com curadoria de Delfim Sardo, vai abrir as portas de locais da cidade onde nunca entramos, e criar um jogo de reflexos e diálogos entre os espaços e obras de arte

A grande porta do Paço da Rainha abre-se, mas à nossa frente está um objecto que nos perturba a entrada. À primeira vista parece uma longa barra de ferro negra, à altura da nossa cintura, estendendo-se quase até ao início das escadas. Contornamo-la, passando entre ela e o militar que nos abriu a porta (no Paço da Rainha funciona a Academia Militar), e observamo-la melhor. Parece, afinal, uma conduta elevada.

"Para mim, foi evidente que tinha que escolher uma peça de Rui Chafes para este espaço, e esta tem o peso, a austeridade, o rigor que o espaço pedia", afirma Delfim Sardo, o curador da exposição itinerante I"ll Be Your Mirror, que faz parte da programação Lisbon Week, e pode ser visitada entre 21 e 28 de Setembro.

A arte cruza-se com a arquitectura, mas, explica Delfim Sardo, "mais do que uma exposição, trata-se de um roteiro por uma série de sítios extraordinários em Lisboa, para o qual foram escolhidos artistas cujas obras pudessem ser trabalhadas na relação com a arquitectura". A peça de Rui Chafes, intitulada Trago-te em Mim como Uma Ferida, "funciona como uma espécie de interruptor para o nosso corpo e para a arquitectura". Se ela não estivesse aqui "a nossa relação com este espaço seria completamente diferente".

A ideia do espelho - a partir da frase I"ll Be Your Mirror, de uma canção escrita por Lou Reed para os Velvet Underground - é o fio condutor deste roteiro. Mas ao curador não interessa trabalhá-la (sempre) de forma literal. As peças escolhidas podem dialogar com os espaços em que estão, espelhando-os, reflectindo-os, desdobrando-os, contrariando-os. A única premissa é a de que a relação entre elas e o espaço nunca é indiferente.

Subimos ao primeiro andar do Paço da Rainha, um edifício setecentista mandado construir pela Rainha Catarina de Bragança próximo do Campo Mártires da Pátria, para ver outra peça, desta vez de Jorge Molder. São quatro grandes fotografias, imagens trabalhadas por Molder a partir de filmes de que gosta particularmente, pousadas em cima de quatro mesas da belíssima biblioteca do palácio. O roteiro serve também este propósito: abre aos visitantes lugares aos quais habitualmente não têm acesso, descobre espaços que mesmo os lisboetas ignoram, desvenda uma cidade escondida.

Outros desses espaços - que será uma descoberta para muita gente - é o Convento de Nossa Senhora da Encarnação, edifício do século XVII que sofreu profundas transformações no século XVIII, e que funciona hoje como lar para idosos. Aqui, a ideia de espelho é evidente no trabalho de José Pedro Croft, concebido especialmente para o convento, que transforma a zona da entrada com um jogo de espelhos que nos projecta para outros espaços. Ao mesmo tempo, descobrimos aquele que é possivelmente um dos locais mais pacatos da cidade e que, surpreendentemente, está a apenas dois passos da Baixa. O convento recebe também uma obra do arquitecto e artista Didier Fiuza Faustino.

O roteiro integra ainda espaços mais conhecidos e públicos, onde a surpresa pode surgir da presença das obras de arte escolhidas para eles. É o caso do Anphiteatro do Laboratório de Chímica, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa. Parados sob a abóbada do anfiteatro, ouvimos um som que reconhecemos como uma pancada de água semelhante a um trovão, e que se repete, de forma diferente, até percebermos que é o som que ouvimos quando o nosso corpo, ao mergulhar numa piscina, rompe a barreira da água.

A instalação sonora é uma peça de Ricardo Jacinto, criada em 2008. "É um som muito físico", comenta Delfim Sardo. No texto de apresentação da peça o curador explica que, ao escolhê-la para este espaço (inicialmente ela foi concebida para ser ouvida na escuridão total) coloca-se em causa "a dicotomia entre a fisicalidade quase primordial do nosso contacto com a água e a metáfora do mergulho no conhecimento proposto pelo paradigma positivista do anfiteatro científico".

Ao entrarmos no anfiteatro pela parte de cima, se levantarmos um pouco os olhos, deparamos com outra obra: duas imagens de um trabalho recente de Helena Almeida, a série Lavada em Lágrimas. Foi ao ouvir, por acaso, numa conversa de rua alguém dizer "lavada em lágrimas" que a artista tomou consciência da beleza da expressão. "Estas imagens são feitas onde Helena Almeida as faz sempre, o mesmo local do seu atelier", explica o curador. Mas desta vez o chão está coberto de água e uma mulher "move-se como se cumprisse uma promessa, ou um desígnio". E sobre nós a água rompe-se no som repetido de um mergulho.

Há casos em que, em vez de se fundir com o espaço acrescentando-lhe significados, a presença das obras é provocatória. Acontece assim no hall do edifício-sede da Caixa Geral de Depósitos, junto ao Campo Pequeno. Atravessada no meio do enorme espaço de mármore está Township Wall (XI), uma peça de 2004 do artista angolano António Ole.

O que vemos é uma espécie de parede condensada de um bairro de lata, pedaços de materiais e cores diferentes, janelas, chapas de zinco, pinturas aparentemente caóticas, mas que, como sublinha o curador, citam grandes momentos da arte contemporânea. O texto que acompanha a peça explica-o melhor: "São fragmentos retirados a casas e lugares, a restos do que foi um lugar de habitação, mas cruzados com a história do grande mistério da pintura ocidental que reside na abstracção criada por Mondrian, Kandinsky e Malevitch.

"O edifício da Caixa é pesadamente simbólico na cidade, e escolhi instalar esta obra na zona mais pesada de simbologia do próprio edifício", conta Delfim Sardo. "É uma peça dúbia, tem toda a linguagem vernacular de uma favela ou de um musseque, mas toda esta sofisticação pictórica".

As obras de arte espelham, confrontam, transformam os espaços - estes e vários outros que poderão ser visitados ao longo da semana, em visitas guiadas ou individuais (ver caixa).

Com elas, entraremos num jogo de espelhos com a cidade e connosco mesmos. "O que vemos", escreve Delfim Sardo nos textos de apresentação, "é, em última instância, aquilo que nos permitimos ver, como um reflexo de nós naquilo para que olhamos. O que descobrimos, só a nós diz respeito".

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