Colunistas

Coimbra Redux

Pedem-me para falar sobre o planeamento urbano de Coimbra. Mas o que Coimbra precisa é de um encenador e de um mágico que lhe reconfigure a alma. Sendo uma cidade delimitada pela paisagem, o essencial nesse planeamento seria a confirmação desses limites, densificando-se como aglomerado medieval e iluminista. Coimbra não precisa de ser "moderna"; precisa de ser ainda mais arcaica e ao mesmo tempo mais do futuro. De ir muito para trás e muito para a frente; no presente, definha. Precisa de canalizar o espírito de Cottinelli Telmo, arquitecto e cineasta, que projectou a intervenção na Alta e reencontrar-lhe a monumentalidade, a solenidade semifascista. Isto é, precisa de se ver livre da lata democrática dos automóveis e das camionetas dos turistas. Até ficar apenas a sombra agigantada das capas como no filme Rasganço de Raquel Freire; pequenos cientistas e poetas em trânsito; "alguém escreveu o teu nome em todo o lado". Com uma ligação mecânica high tech a fazer troça das escadas Monumentais e com isso a refundar a sua arcaica severidade. Com residências para professores, estudantes, e toda a gente, numa penthouse forjada no que antes era a Faculdade de Medicina. Implodindo de luz o monocromático dos edifícios, com estúdios para os novos empreendedores e novas utilizações para as salas e auditórios de clandestina modernidade. Até chegarmos à Sala de Exame Privado onde António Olaio canta perpetuamente My Own Moon para a galeria de Reitores retratados.