Grande vingança e raiva furiosa

Nenhum paternalismo, nenhuma amizade, apenas eterna não-reconciliação

Nas suas forças e fraquezas, Lincoln, Django, e Hora Negra são filmes sobre a fealdade da História.

Lembrem-se daquele monólogo bíblico (Ezequiel 25:17) que Samuel L. Jackson proferia (três vezes) em Pulp Fiction, especialmente as duas frases finais: "And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy my brothers. And you will know my name is the Lord when I lay my vengeance upon thee". Ou em arrazoada tradução portuguesa, por falta de uma verdadeira Bíblia à mão: "E cairei com grande vingança e raiva furiosa em cima de ti e dos que tentarem envenenar e destruir os meus irmãos. E saberás que o meu nome é o Senhor quando eu pousar a minha vingança sobre ti".

Talvez na altura de Pulp Fiction tomássemos isto só pelo seu delicioso paladar a Antigo Testamento, e pensássemos que Tarantino, Senhor do Verbo, se interessava por ele exclusivamente pela mesma razão. Fazíamos mal: hoje, vários filmes depois, parece evidente que em Ezequiel 25:17 está todo o "código moral" do cinema de Tarantino. Um cinema de grande vingança e raiva furiosa, a que é completamente estranho o ideário do Novo Testamento, onde não há Perdão nem ninguém alguma vez dá a outra face. Kill Bill, Deathproof, Inglorious Basterds são só isto, em diferentes contextos narrativos. Percebe-se mal por que razão se havia de esperar que Django, lá por tratar da escravatura, proporia um "código" diferente, ou uma mensagem de conciliação ou apaziguamento. No mundo de Tarantino, esses termos são inconcebíveis, e de resto, como por exemplo acontece em filmes sobre a Máfia, todas as personagens conhecem o código: uns sabem que o seu papel é exercer a vingança, outros aceitam que o seu papel é servirem de pouso para essa vingança. Todos se oferecem ao código com uma espécie de paz encontrada na mais inominável violência: é ver em Django, por exemplo, o extraordinário destino da personagem de Samuel L. Jackson, talvez a mais complexa e arriscada de todo o filme (é o "bom negro", o negro que aceita o domínio branco, correia entre escravos e esclavagistas, espécie de "kapo", versão "hardcore" dos negros "bem comportados" e apatetados do cinema clássico americano, Stepin Fetchit dos infernos). Quando Tarantino se irrita diante de um jornalista e exclama que "isto é um filme", é a isso que ele se refere: isto é um filme, isto é um código. Um filme é um filme, a Bíblia é a Bíblia, uma tragédia grega é uma tragédia grega. São códigos, e sem se perceber os códigos não se chega lá. E é como código que Django se constitui, 98 anos depois, como o mais eficaz antídoto para um filme que a América, as boas razões sufocando as más, aprendeu a execrar, o Birth of a Nation de Griffith (ver em Django o Ku Klux Klan transformado em anedota). Nenhum paternalismo, nenhuma amizade, apenas eterna não-reconciliação. Birth of a Black Nation, ou melhor ainda, Burst of a Nation.

Parece também que boa parte da opinião pública americana depositava noutro filme as esperanças de redenção de uma das mais apaixonantes sagas de grande vingança e raiva furiosa vividas em anos recentes: a caça, e o posterior abate, de Osama Bin Laden. Como se a 00.30Hora Negra de Kathryn Bigelow tivesse a responsabilidade de limpar a "honra negra" (ou enegrecida) das boas consciências americanas, encardida por histórias de tortura e assassínios sem julgamento ou mandato judicial, para se ficar com o melhor de dois mundos: um mundo onde Bin Laden está morto, e um mundo onde todos têm a honra lavada. Há uma hipótese de Bigelow até ter feito esse filme, e a lagriminha final de Jessica Chastain ser uma lagriminha por todos os princípios que foram sacrificados em nome da grande vingança (mas não se percebe bem: Hora Negra é o mais desajeitado filme que Bigelow já fez, totalmente desprovido de ponto de vista sobre seja o que for, muito longe, hélas!, da melhor Riefenstahl). Mas permitam-nos levantar outra hipótese, e com ela voltar a Tarantino: o filme que queriam que Bigelow fizesse já foi feito, chamou-se Inglorious Basterds, torcia a moralidade e o maniqueísmo comuns (o lugar dos "bons" e dos "maus", essa terminologia ainda relevante em muito discurso público americano, como recentemente se ouviu a propósito do último massacre numa escola) a um ponto em que os "heróis" se tornavam obscenos, tão obscenos como os "vilões", e onde o fantasma de Abu Ghrayeb estava presente de forma muitíssimo perturbante e nada casual (entroncando, de resto, com a persistência da tortura, e do espectáculo da tortura, como tema dominante em Tarantino desde os Cães Danados). Mas, mais uma vez, a questão será a de encontrar o "código", e depois desfiá-lo.

Nas suas forças e fraquezas, quer Django quer 00.30Hora Negra são filmes sobre a fealdade da História. Sobre as nódoas que mancham as causas justas, sobre a pequena (ou grande) corrupção que amiúde é necessária para engatilhar a História, para a pôr em marcha. Um filme como o Lincoln de Spielberg, a estrear em breve, também é assim: conta como Lincoln teve que "comprar" os votos necessários para fazer aprovar a extinção da escravatura (embora esteja talvez mais interessado em aludir aos "bloqueios" que Obama encontrou durante o primeiro mandato). Mas o único que leva ao máximo o cinismo subjacente a esta ideia é Tarantino - Bigelow apaga-se, Spielberg contenta-se com sorrisinhos de cumplicidade. Tarantino constrói um monumento de insolência, uma pedrada no charco "politicamente correcto" em que nos vamos atolando. O seu "código" virá do Antigo Testamento, mas não parece que, como chave para a compreensão do mundo, tenha perdido validade. Francamente, olhemos em volta: onde é que não há grande vingança e raiva furiosa?...

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