De Barcelos a Mumbai e de volta

O número da espanhola El Croquis dedicado ao atelier "alternativo" Studio Mumbai dá um passo em frente nesse modelo kitsch do "arquitecto-artífice"

Hoje a arquitectura é "interessante" na medida em que ela própria é um "marketing by-product." Hoje, o que importa é comunicação pura ou anti-comunicação, que é uma forma de comunicar bastante mais sofisticada e igualmente eficaz. Ficar in loco parentis neste meio pode indiciar um perigoso estado de desespero.

Quanto ficamos velhos, uma das atitudes recorrentes é achar que o mundo é todo igual. Olhamos para um jovem atelier a fazer um concurso de arquitectura para Barcelos com enorme desprezo simplesmente porque já não acreditamos. Não acreditamos na viabilidade financeira, na transparência do júri, no realismo político ou nas próprias qualificações técnicas do cliente. Achamos o gesto patético (pior um pouco quando o concurso tem pretensões de seriedade e há três prémios e cinco menções honrosas...). E infelizmente, na maior parte das vezes, a razão está do nosso lado.

A arquitectura, não apenas em Portugal - mas especialmente em Portugal-, tornou-se uma das profissões liberais mais desqualificadas do mercado de trabalho. Pôr arquitectos a trabalhar é fácil e barato. Qualquer promotor lança um concurso com 8 a 14 concorrentes para um projecto de meia dúzia de moradias. Ao vencedor, dispõe-se a pagar 5 por cento dos honorários iniciais (com um desconto de 65 por cento da tabela), se e quando obtiver financiamento... Enfim, há chaves e terminações de jogos da Santa Casa com maior probabilidade estatística de remuneração.

Na cadeia alimentar somos uma espécie de manada de antílopes escanzelados a tentar aproximar-se de uma ribeira cheia de chacais e hienas, elas próprias esfaimadas. Sem contemplações. Esta profissão perdeu disciplinarmente em 20 anos o que levou 60 a construir. A importância do "calibre do métier", a que Kenneth Frampton nos anos 80 tantas vezes aludia, perdeu-se no "faroeste" dos media. Agora o que importa é ter likes no Facebook. Mas ao contrário dos Zuckerbergs deste mundo, os arquitectos ainda vivem desse patético e antiquado modelo de remuneração chamado "honorários". Não temos royalties, photo shoots ou guest appearances (embora gostássemos).

E porque não? A experiência da arquitectura há muito que deixou de ser física. Se alguém devia receber o próximo Prémio AICA (leia-se, Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte) são os irmãos Fernando e Sérgio Guerra pela repercussão dos seus créditos fotográficos. Ninguém fez tanto pela promoção da arquitectura como esta dupla de fotógrafos (ver www.ultimasreportagens.com). A newsletter dos irmãos tem hoje maior eco internacional que qualquer iniciativa institucional em Portugal. A partir dela são geradas múltiplas capas de revistas internacionais, e sabendo isto os arquitectos portugueses recorrem indefectíveis a esta dupla. E porque não? I am my brother"s keeper.

Esta relação entre arquitectura, imagem e média foi muito discutida no início do século. O inicial desconforto pela crueldade e vulgaridade da imagem (o inevitável tubo de queda, a iluminação municipal, os inacabados da obra...) foi resolvido com o Photoshop. O passo seguinte nos media foi a entronização do "arquitecto como autor" e aí emergiu ele, ficcionado numa personagem circunspecta, fotografado de camisa branca em contraluz, como se dele irradiasse uma ressonância evangélica pela pureza da sua missão. Mas até estas pequenas encenações se tornaram insignificantes face ao domínio absoluto da fotogenia. Hoje a arquitectura é "interessante" na medida em que ela própria é um marketing by-product. Hoje, o que importa é comunicação pura (OMA e sus muchacos, Ole Scheeren, Bjarke Ingels, Fernando Romero, etc), ou anti-comunicação, que é uma forma de comunicar bastante mais sofisticada e igualmente eficaz (e.g. Jonathan Wolff, Caruso St. John, Valerio Olgiati, etc). Ficar in loco parentis neste meio pode indiciar um perigoso estado de desespero.

Neste contexto saturado de pretensiosismo, surge um número da revista espanhola El Croquis dedicado a um bizarro atelier "alternativo" chamado Studio Mumbai. Localizado na Índia, como o nome indica, este atelier dá um passo em frente nesse modelo quase sempre kitsch do "arquitecto-artífice", em que ele próprio se constitui gestor de obra e construtor. Moradias e pequenos edifícios de um ou dois pisos, sem novidade e de uma modernidade há muita adquirida, transmitem no entanto um imenso conforto e serenidade. Confesso que preferia viver numa daquelas casas - e sei que me devo penitenciar por isso - do que na estridência de um cubo experimental holandês ou de um aquário de vidro japonês. Rompendo como o new-normal da doutrina contemporânea, nos projectos deste Studio Mumbai não parece haver qualquer tentativa de exorcismo sobre o habitante. Além disso, a tranquilidade que emana das imagens daquele atelier, sem o calabouço das habituais workstations de Macs, despojos de maquetas e restos de caixas de pizza, provoca em nós a esperança - seguramente naïf- de que serão personagens interessadas em restaurar dignidade disciplinar à arquitectura.

Sim. É verdade que tudo é possível numa economia que cresce a 6 ou 7 por cento ao ano. No entanto, pergunto-me se, enquanto métier, não terá chegado a altura de se reinventar a própria cultura arquitectónica em Portugal. Estará a nossa Barcelos assim tão longe de Mumbai?

Paulo Martins Barata é arquitecto em Doha e Lisboa pmb@promontorio.net

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