Vai ser leiloada uma carta onde um pai explica ao filho "o segredo da vida"

Francis Crick, no Instituto Salk, com um modelo 3D do ADN; e a página da carta com o desenho Instituto Salk

Há 60 anos, o biólogo Francis Crick explicou, em primeira mão, a estrutura do ADN ao filho de 12 anos, numa carta que vai agora a leilão.

Uma autêntica aula de introdução à genética molecular avant la lettre vai a leilão nesta quarta-feira ao fim da tarde (hora de Lisboa) na Christie's de Nova Iorque. Páginas manuscritas, com desenhos e diagramas à mistura, nas quais o biólogo britânico Francis Crick, co-descobridor da estrutura molecular em dupla hélice do ADN, descreveu há 60 anos essa descoberta e a sua importância de forma muito acessível. A leiloeira estima que o seu preço de venda deverá rondar um a dois milhões de dólares (760 mil a um milhão e meio de euros).

Não é por acaso que o documento é tão fácil de ler: trata-se de uma carta que Crick, na altura com 36 anos, escreveu desde Cambridge (Reino Unido) ao seu filho, Michael, de 12 anos, que vivia longe de casa, num colégio interno. Datada de 19 de Março 1953, antecede em várias semanas a publicação oficial, por Crick e o seu colega norte-americano James Watson, de um dos mais fundamentais avanços científicos de sempre.

Agora, aos 72 anos, Michael Crick decidiu vender a carta paterna e doar metade do dinheiro arrecadado ao Instituto Salk, na Califórnia, onde Francis Crick trabalhou até à sua morte, em Julho de 2004. Diga-se ainda que amanhã, na Heritage Auctions, em Dallas, também será leiloada a medalha do Nobel da Medicina de Crick (que, em 1962, partilhou o galardão com Watson e Maurice Wilkins, do King"s College de Londres).

Francis Wahlgren, da Christie"s, salientava há uns dias, na revista Nature, que o valor da carta é ao mesmo tempo histórico - foi uma das primeiras descrições escritas da estrutura do ADN - e afectivo. E de facto, apesar do seu tom de "história contada a todos" (que por vezes evoca as Histórias Assim de Rudyard Kipling para a filha), o rigor científico da carta de Crick nada deve ao do artigo que a Nature iria publicar a 25 de Abril do mesmo ano de 1953. Ao longo de sete páginas (ver aqui uma transcrição), Crick explica, numa linguagem clara e directa, onde a ciência "dura" alterna com expressões de carinho paterno - e onde a cada linha também é tangível o respeito intelectual do pai pelo filho -, que ele e Watson acabam de desvendar nem mais nem menos do que "o segredo da vida" (uma expressão que próprio Crick gostava de usar).

"Jim Watson e eu fizemos provavelmente uma descoberta da maior importância", escreve Crick. "Construímos um modelo da estrutura do ácido-des-oxi-ribo-nucleico [os hífens são do autor] (lê atentamente o nome) - ou, abreviando, A.D.N."

A seguir, Crick descreve a estrutura da molécula: "Uma longa cadeia, com uns bocados planos espetados" (são as célebres "bases"). E mais adiante: "Ora, temos duas destas cadeias enroladas uma à volta da outra - cada uma é uma hélice - e a cadeia, feita de açúcar e fósforo, fica do lado de fora, e as bases ficam todas do lado de dentro." Um desenho do ADN completa a descrição.

"E agora, vem a parte excitante", anuncia Crick. E passa a explicar que as bases, que são só quatro (A, G, T e C), se ligam em pares, mas que os pares só podem ser de A com T e de G com C. "Dado um conjunto destas letras, podemos deduzir o outro. Pensamos que o A.D.N. é um código." E acrescenta: "Podes ver agora como a natureza faz cópias dos genes. Porque se as duas cadeias se separam e se cada uma se junta a uma outra cadeia, então como A vai sempre com T e G com C, obtemos duas cópias onde antes tínhamos apenas uma." E é aqui que Crick escreve a frase poética que contém o segredo da vida: "Pensamos ter descoberto o mecanismo básico de cópia através do qual a vida provém da vida."

Watson e ele estão muito entusiasmados, diz ainda, e daí a uns dias vão enviar um artigo para a Nature (foi a 2 de Abril). Crick volta a instar Michael a ler tudo com atenção, "para conseguires perceber". E termina: "Quando voltares a casa, mostrar-te-emos o modelo." Despede-se: "Com muito amor, o papá."

Umas semanas mais tarde, Watson e Crick revelariam o resultado ao mundo inteiro, enunciando a sua importância para a replicação da vida em termos mais "científicos": "Não deixámos de reparar que a organização específica das bases por pares, que aqui propomos, sugere imediatamente um mecanismo possível para a replicação do material genético", escreviam, quase en passant, na Nature.

Segundo o New York Times, Michael - que vive nos EUA e fez uma carreira científica na área da computação - ainda se lembra de quando recebeu a carta. Tinha gripe, estava acamado e sozinho num quarto para evitar o contágio e teve muito tempo para a ler. Recorda ter repetido muitas vezes o nome completo do ADN, tal como o pai lhe pedira...

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