Osgas podem ser identificadas pelos seus olhos, mostra estudo português

Esta subespécie de osga só existe nas ilhas Selvagens, vive cerca de oito anos e pode atingir entre sete e 12 centímetros de comprimento luís ferreira

Tal como nos humanos, não há duas osgas com o mesmo padrão de olhos. Equipa portuguesa demonstrou que é possível usar esta característica para identificar estes répteis e fazer a contagem de populações

No grande planalto da Selvagem Grande, no meio do Atlântico, as osgas escondem-se debaixo das pedras. Ricardo Rocha andou a apanhá-las em 2009 e 2010: "Uma pedra com mais de um palmo de comprimento tinha em regra uma osga por baixo." O biólogo, de 28 anos, participou num projecto mais alargado sobre a evolução desta população de Tarentola boettgeri bischoffi, subespécie endémica das ilhas Selvagens, depois de os coelhos e ratos terem sido erradicados de lá no início do século XXI. Ricardo Rocha queria saber se era possível fazer contagens destes indivíduos pelo padrão dos olhos, o que evitaria abordagens mais violentas como o corte de dedos das patas dos répteis.

O trabalho mostra, pela primeira vez, que se pode usar o padrão da íris para fazer esta identificação noutra espécie que não a humana. Ou seja, não há duas osgas com o mesmo padrão de olhos. Para isso, utilizou-se um programa informático que facilita a contagem das populações, revela a equipa no artigo publicado na revista Amphibia-Reptilia. Além de poder ser utilizada noutras espécies de osgas, a nova técnica poderá ser aplicada de forma mais genérica a anfíbios.

Identificar indivíduos é uma das tarefas mais importantes quando se estuda animais. Só assim se pode avaliar o tamanho de populações e, com isso, perceber se uma determinada espécie está a aumentar ou corre o risco de se extinguir. Só assim se pode conhecer características tão simples como o seu tempo médio de vida.

É trabalho de campo puro e duro. Como não se pode pedir a todas as osgas para se colocarem em fila indiana para serem contadas, tem de se contornar o desafio de outra forma. Para começar, define-se uma área no espaço. No caso do estudo das osgas, desenharam-se seis quadrados, cada um com um hectare, no planalto da Grande Selvagem. De seguida, tentou-se apanhar o maior número de osgas, para as medir, identificar, soltando-as depois. Por fim, voltou-se ao mesmo local e repetiu-se a captura. Os animais foram, de novo, identificados. Alguns apanharam-se pela primeira vez, mas outros já o tinham sido.

Desta forma, chega-se a uma proporção entre animais novos e animais recapturados, o que permite calcular a dimensão da população na área e extrapolar para todo o habitat. Foi isso que Ricardo Rocha fez.

É preciso autorização para visitar as ilhas Selvagens, que são zona protegida, e que recentemente foram capa dos jornais devido à polémica entre Portugal e Espanha sobre a definição da fronteira marítima entre os dois países (as Canárias ficam a sul).

Quando se visita as Selvagens, fica-se dependente de um único navio, que só volta 21 dias depois. Durante esse tempo, Ricardo Rocha passava os dias a contar osgas. "Cheguei a contar mais de 80 numa hora", conta. Esteve três temporadas na ilha, duas em 2009 e uma em 2010. O biólogo pertence ao Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e foi orientado por Rui Rebelo, professor da FCUL, que também é autor do artigo.

Para este trabalho, Ricardo Rocha mediu cada osga que apanhou, identificou o seu género, contou os ovos no caso das fêmeas, estudou se tinha feridas ou a cauda arrancada. Depois fotografou os olhos: pôs o réptil a olhar para o Sol, obrigando-o a fechar a pupila, e captou as suas enormes íris com linhas e pontos. Foi este o método que testou para identificar cada osga.

No passado, para se identificar estes animais, cortavam-se pedaços dos dedos. Deixava-se assim uma marca, que indicava que já tinham sido capturados. Mas esta técnica, além de causar dor, dificultava a movimentação dos répteis - as osgas dependem muito dos dedos das patas para se colarem às superfícies. "Qualquer pessoa que trabalha com osgas depara-se com este dilema moral", diz o biólogo. Fotografar o padrão dos olhos seria uma alternativa que evitaria aquele método.

Já se faz identificação por fotografia de animais, captando as riscas de certos felinos ou as manchas dos tubarões, mas as osgas não têm nenhum padrão na pele semelhante.

A equipa utilizou um software informático para identificar o padrão dos olhos que já tinha sido aplicado na identificação dos tubarões. Revelou-se uma boa alternativa. Nos três períodos na ilha, Ricardo Rocha capturou cerca de 700 animais, recapturou 300 e tirou cerca de 1000 fotografias. Em 95% das vezes, o programa conseguiu identificar a osga recapturada através do padrão do olho. O método é muito mais rápido do que a identificação feita manualmente, o que continua a ser necessário para os 5% dos casos em que o software não acerta.

"Esta técnica pode ser utilizada para outras espécies de osgas e anfíbios", diz Ricardo Rocha, que agora a usa no trabalho de campo que está a fazer na Amazónia, quando captura uma outra espécie de osga. "Este método abre as portas ao estudo de um leque de questões biológicas sobre estes animais."

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