O filme da vida embrionária dos dinossauros visto pela primeira vez

Rodela de um fémur, com os vasos sanguíneos no exterior e a cavidade da medula; ao lado, fémur e desenho de embrião A. LeBlanc

Encontraram-se na China mais de 200 ossos, em várias fases de desenvolvimento embrionário. Têm 190 milhões de anos, são dos embriões de dinossauro mais antigos - os da Lourinhã vêm a seguir - e revelam como eles cresciam dentro dos ovos

Os rios enrolavam-se pela paisagem, em curvas e contracurvas, e de vez em quando as suas águas mansas invadiam as planícies. Quando não estava tudo inundado, os lufengossauros cirandavam por estas terras à procura de sustento suficiente para os seus corpos de quase oito metros de comprimento. Se vissem ramos viçosos de alguma conífera, apoiavam-se com as garras das patas da frente ao tronco e, esticando os pescoços, deliciavam-se com as folhas a que muitos outros herbívoros não chegavam. Nada mais natural que no chão, nalgum recanto protegido destas terras, agora em território chinês, as fêmeas de lufengossauro, na altura da reprodução, pusessem os seus ovos, que não tardariam a eclodir, e então as crias de dinossauro faziam-se ao mundo. Essa não foi, porém, a sorte que tiveram vários ninhos, num certo dia há 190 milhões de anos.

Uma inundação deixou tudo alagado, os ovos já com embriões lá dentro foram destruídos e, no decurso de milhões de anos, acabaram por ser tapados por sedimentos. Esta bem podia ser a descrição do que aconteceu a vários ovos de dinossauros e que, há três anos apenas, foram descobertos perto da cidade chinesa de Dawa, na região de Lufeng, província de Yunnan.

Uma equipa internacional de cientistas virou-os do avesso e ontem, na revista científica Nature, referiu que este achado permitiu fazer uma espécie de filme, o primeiro, de várias fases do desenvolvimento embrionário dos dinossauros, algo bastante mal conhecido por diversas razões.

Antes de mais, os ovos de dinossauro são muito raros, em todo o mundo. Além disso, resumem-se quase só ao período que antecedeu a extinção de grande parte dos dinossauros, o Cretácico Superior, há 65 milhões de anos, provavelmente na sequência da colisão de um meteorito com a Terra. "Excepções notáveis", diz no artigo a equipa liderada por Robert Reisz, da Universidade de Toronto em Mississauga, Canadá, são dois achados: um do Jurássico Inferior da África do Sul, com cerca de 190 milhões de anos, tal como os ovos com embriões da China agora revelados; o outro do Jurássico Superior de Portugal, uma referência aos ovos com embriões de dinossauros carnívoros da Lourinhã, com cerca de 150 milhões de anos.

"O facto de os embriões de dinossauro serem raros e estarem geralmente enclausurados pelas cascas dos ovos limita a sua disponibilidade para investigações sobre o desenvolvimento a nível dos tecidos e das células. Consequentemente, pouco se sabe sobre os padrões de crescimento dos embriões de dinossauro, apesar de a ontogenia [transformações sofridas pelos indivíduos] depois da eclosão dos ovos ter sido estudada em vários taxa [grupos de dinossauros]", lê-se no artigo na Nature. "Aqui relatamos a descoberta de uma camada de ossos embrionários do Jurássico Inferior da China, os mais antigos no registo fóssil."

Do local recuperaram-se mais de 200 pequenos ossos, desde vértebras e fémures até fragmentos das costelas e do crânio. Estavam em diferentes fases de desenvolvimento, o que indica a proveniência de diferentes ninhos. Os ovos estavam todos esmagados e nenhuma das estruturas dos ninhos se manteve intacta.

A equipa pensa que os ossos são 20 indivíduos, que terão pertencido a um género de dinossauro muito comum na região naqueles tempos, entre há 190 a 197 milhões de anos - o Lufengosaurus, o seu nome científico, ou apenas lufengossauro.

"Sabemos pouco sobre o ecossistema, excepto que era um sítio com colónias de ninhos do Lufengosaurus e que estava sujeito a inundações repetidas. Por isso, devia estar perto de um sistema fluvial de águas mansas, que ocasionalmente inundava a área", diz ao PÚBLICO Robert Reisz.

O lufengossauro foi um dos primeiros grandes dinossauros herbívoros da Terra. Está entre os antepassados, ainda que não directos, de um grupo que apareceria mais tarde, a meio do Jurássico - os saurópodes, estes sim gigantescos e pescoçudos, que se deslocavam vagarosamente pelas pradarias jurássicas. Nos cerca de oito metros de comprimento dos lufengossauros inclui-se não só um pescoço jeitoso como uma cauda que já não era muito pequena. Ele era uma máquina trituradora de comida, essencialmente plantas, e era provável que as coníferas fizessem parte da sua dieta, embora se suspeite que comesse de tudo um pouco.

Há 190 milhões de anos, há que dizer, os dinossauros tinham surgido há relativamente pouco tempo, se tivermos em atenção o seu longo reinado na Terra, iniciado há 230 milhões de anos e interrompido há 65 milhões pelo meteorito.

Ora tendo em conta a raridade dos ovos de dinossauro com embriões, o achado da China, pela sua diversidade de estádios de desenvolvimento, permite contar a história destes bichos que fascinam tanta gente quando ainda estão dentro dos ovos.

Os embriões estudados por outras equipas estavam em estádios de desenvolvimento mais precoces, diz-nos Robert Reisz, e num só estádio em cada ninho: "Esta é a primeira vez que diferentes alturas da vida embrionária são comparadas umas com as outras." Resultado: "Descobrimos que eles cresciam depressa."

Através de imagens, obtidas nomeadamente com raios-X potentes, a equipa estudou fémures cortados às rodelas e pôde determinar que o padrão de crescimento era muito rápido. O período de incubação era assim curto, refere a equipa, ainda que não explicite esse tempo em números. Além disso, os exames anatómicos dos ossos mostraram que os músculos já estavam activos ainda antes da eclosão dos ovos, contraindo e esticando os fémures, o que os moldava durante o desenvolvimento. "Isto sugere que os dinossauros, tal como as aves modernas, moviam-se dentro dos ovos. Esta é a primeira prova deste movimento nos dinossauros", sublinha Robert Reisz, num comunicado da sua universidade.

Mais: nas análises químicas aos ossos detectou-se o que poderão ser fibras de colagénio, uma proteína. "No processo de fossilização, os ossos de animais antigos são transformados em rocha. Encontrar restos de proteínas em embriões é extraordinário, particularmente porque estes exemplares são 100 milhões de anos mais antigos do que os fósseis que contêm material orgânico semelhante."

Depois desta descoberta, que lugar ocupam os ovos da Lourinhã no contexto mundial? "São muito fixes e ainda há muito a fazer sobre eles", responde Robert Reisz. "São fascinantes porque, depois dos materiais apresentados neste artigo e no meu trabalho anterior sobre os embriões de dinossauro da África do Sul [com 190 milhões de anos, do herbívoro Massospondylus e publicado em 2012], são os embriões mais antigos."

O achado da Lourinhã pôs esta vila da região Oeste portuguesa no mapa-múndi da paleontologia em 1997, quando o museu anunciou a descoberta, feita em 1993, de um ninho enorme, onde um grupo de fêmeas pôs mais de uma centena de ovos. Eram, e continuam a ser, os embriões de dinossauros carnívoros mais antigos do mundo.

O ninho estava numa falésia perto do mar, a cinco quilómetros da Lourinhã, e hoje a equipa que o tem estudado considera que os seus ovos são do Lourinhanosaurus antunesi, um carnívoro bípede.

"Estamos a escrever um artigo sobre estes embriões: é uma descrição anatómica", refere Octávio Mateus, do Museu da Lourinhã, onde se encontram os ovos. "Estamos a compreender melhor a evolução do ninho, das cascas e dos embriões", diz o paleontólogo português, acrescentando que também lhes foram feitas radiografias com raios-X potentes na Alemanha. "A Lourinhã continua a ser incontornável no estudo dos embriões de dinossauros", comenta Octávio Mateus. "O achado na China acrescenta dados para grupos de dinossauros pouco conhecidos e avança detalhes da sua anatomia e biologia."

As últimas novidades científicas "abrem uma janela", nas palavras de Robert Reisz, para a vida destes bichos.

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