Fóssil do lago Niassa é um tio-avô de todos os mamíferos

Ilustração científica do Niassodon mfumukasi, com o seu bico córneo; em baixo, o fóssil encarcerado na rocha Fernando Correia/Universidade de Aveiro

Do tempo em que a Terra tinha um só supercontinente, fóssil descoberto em Moçambique é novo para a ciência. Equipa liderada por paleontólogos de Portugal e Moçambique faz a sua descrição científica

Surgiu na Terra ainda antes dos dinossauros e dos mamíferos. Era pequeno, não passava os 30 centímetros e 800 gramas. A cabeça tinha um certo ar de tartaruga, devido a um bico córneo que usava para cortar as plantas que comia. Nós e todos os mamíferos do planeta não descendemos directamente dele e do grupo a que pertencia (os dicinodontes), mas de um grupo irmão (os cinodontes) - por isso, este animal que viveu há 256 milhões de anos e cujo fóssil foi encontrado em Moçambique, perto das margens do lago Niassa, é um tio-avô dos mamíferos.

Foi descoberto numa expedição de dois paleontólogos portugueses em 2009: Rui Castanhinha e Ricardo Araújo, do Museu da Lourinhã, foram para Moçambique com o fito de descobrir o primeiro dinossauro desse país. E, afinal, o que lhes apareceu foi um fóssil ainda mais antigo e raro do que os de dinossauros, que é descrito na revista Plos One e apresentado hoje na Lourinhã. O animal - que viveu no período Pérmico, quando ainda faltavam cerca de 30 milhões de anos para surgirem os primeiros dinossauros e mamíferos, já no período Triásico - é de um género e espécie novos para a ciência. Nessa altura, os continentes estavam todos juntos num só, a Pangeia.

No início, os resultados da expedição não eram animadores. Enquanto Rui Castanhinha teve de voltar a Portugal, Ricardo Araújo prosseguiu sozinho na última semana da viagem, com um motorista e um guia local. "Praticamente no último dia, depois de quase toda a região batida a pé, encontro finalmente no chão uma série de concreções [nódulos] calcárias, daquelas em que se sabia que há fósseis", contou Ricardo Araújo em 2010, quando a descoberta foi noticiada. "Lá estava ele."

Encontrado a uns quilómetros do lago Niassa, perto de um curso de água seco, excepto na estação das chuvas, o fóssil estava enrolado sobre si próprio e encarcerado na rocha esférica. O nome científico escolhido é Niassodon mfumukasi, que na língua chiyao, falada na região pelo grupo étnico Yao, significa a "Rainha do Lago Niassa". "[O nome] constitui uma homenagem à sociedade matriarcal Yao, à mulher moçambicana e à beleza do lago Niassa", justifica, num comunicado, a equipa liderada por Rui Castanhinha, Ricardo Araújo e pelo moçambicano Luís Costa Júnior, director do Museu Nacional de Geologia, em Maputo, e outro dos autores do artigo científico.

Que importância tem então a Rainha do Lago Niassa? Não era um réptil nem um mamífero. Era um sinapsídeo, animais vertebrados terrestres, onde também se incluem todos os mamíferos actuais. O seu fóssil é um "raro exemplo" de um sinapsídeo primitivo, diz o comunicado.

Dentro dos sinapsídeos, encontrava-se o grupo dos dicinodontes (como sugere o nome, a maior parte tinha dois dentes caniformes, ou presas, que saíam da boca) e o grupo dos cinodontes e é esta última linhagem que, há cerca de 220 a 230 milhões de anos, daria origem aos mamíferos - estes é que são os nossos avós.

Ora foi no grupo dos dicinodontes que a equipa incluiu o Niassodon mfumukasi, por sinal desprovido das duas carismáticas presas, mas com dentes pequenos na parte de trás da boca, que usava para triturar plantas. "Os animais mais próximos desse animal que estão hoje vivos são os mamíferos. Está mais próximo dos mamíferos do que dos répteis, dos anfíbios, dos peixes. Pode dizer-se que é um antepassado dos mamíferos", explica Rui Castanhinha.

"No final do Pérmico, os dicinodontes eram o grupo de vertebrados terrestres mais diversos: tinham mais espécies, mais géneros, tamanhos diversos, viviam em ambientes diferentes. Dominavam a Terra", frisa o paleontólogo. "Eram um sucesso evolutivo e sobreviveram à maior extinção [em massa], na transição do Pérmico para o Triásico, há cerca de 250 milhões de anos. Mas poucos milhões de anos depois, extinguiram-se, por razões que não sabemos bem. O que é uma lição de vida para nós: dominamos o planeta e não sabemos o que causa estas extinções."

Quanto à Rainha do Lago Niassa, desconhecemos quando esta espécie desapareceu. "Como só temos um espécime, só sabemos que viveu naquela altura. Precisamos de encontrar outros", diz o paleontólogo. Também se desconhece se punha ovos, como outros dicinodontes. "É um grande mistério. Não temos nenhum ovo fossilizado."

O que se sabe é que viveu numa zona abundante em água, perto de rios ou lagos, e que, desde a sua descoberta, o fóssil andou em viagem. Veio para Portugal, seguiu para os EUA, onde Ricardo Araújo faz o doutoramento na Universidade Metodista do Sul, em Dallas, e aí começou a ser limpo. Concluiu-se esse trabalho em Portugal, no Museu da Lourinhã e no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, onde Rui Castanhinha também faz o doutoramento. Pelo meio, foi até Hamburgo, onde se obtiveram imagens 3D dos ossos, para estudar a anatomia de um sinapsídeo primitivo. Por fim, nessas imagens, "limpou-se" a rocha e individualizaram-se os ossos, podendo ver-se qualquer um, de qualquer ângulo, em qualquer zoom. Atribuiu-se ainda um volume ao interior de cada osso e, assim, obteve-se o cérebro em 3D de um bicho com 256 milhões de anos.

Antes de voltar a Moçambique, em 2014, quem quiser pode cruzar-se com este familiar dos mamíferos no Museu da Lourinhã.

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