Asteróide passa hoje rente à Terra e pode ser visto com binóculos

Vai ser uma rasante. Nunca se tinha registado a passagem tão próxima de um asteróide com o tamanho do 2012 DA14. O voo pode ser acompanhado a partir das 20h.

Nome: 2012 DA14. Diâmetro: cerca de 50 metros, o equivalente a uma piscina olímpica. Composição: silicatos, ferro e níquel. Órbita: dá uma volta ao Sol em 368 dias. Mas isso muda hoje. Por volta das 19h40 o DA14 vai passar rente ao nosso planeta, ficando apenas a 27.600 quilómetros da Terra, menos de um décimo da distância que nos separa da Lua. Esta proximidade vai permitir que a força gravítica da Terra altere e diminua o tamanho da órbita do asteróide.

Quem quiser pode observá-lo com a ajuda de um pequeno telescópio ou de um binóculo. Em alternativa, o Observatório Astronómico de Lisboa anunciou que estará de portas abertas a partir das 21h. Pode mesmo apontar para o céu e dizer: "Nunca se registou um asteróide com este tamanho a passar tão perto de nós."

É uma ideia a considerar. Afinal, a última vez que um objecto com um tamanho equivalente, em vez de passar ao lado, colidiu contra a Terra, na Sibéria, em 1908, destruiu 80 milhões de árvores numa área de 200 quilómetros quadrados. Pense-se, durante um momento, numa Lisboa desaparecida.

Felizmente não é o caso. Em Portugal, o asteróide só vai poder ser visto a partir das 20h05, quando estiver a nascer, a leste, já a afastar-se da Terra. A melhor referência é a constelação de Leão, que, por essa altura, está também a nascer um pouco mais a norte do local onde nasce o Sol. "O melhor é apontar para um local no céu [com o binóculo ou com um telescópio] e esperar que o asteróide passe", diz ao PÚBLICO Nuno Peixinho. A olho nu não é possível detectar o brilho do asteróide e mesmo com binóculos é necessário ter (ou fazer) um tripé. "Quando se segura os binóculos com as mãos, elas tremem e não se consegue ver um objecto em movimento", explica o astrónomo do Centro de Geofísica da Universide de Coimbra e que está sediado no Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra.

O bólide vai nascer e vai colocar-se por cima da brilhante estrela Denébola, que "desenha" a cauda da constelação de Leão. Depois, vai movimentar-se em direcção ao centro da Ursa Maior. O asteróide caminha um grau no céu nocturno por minuto (se esticar o dedo indicador para o céu, a largura do dedo é o equivalente a um grau). Ao mesmo tempo, continua a distanciar-se da Terra e vai ficando cada vez menos brilhante. Por isso, a melhor altura para o ver é durante a primeira hora após o seu nascimento.

Há quase um ano, o observatório de La Sagra, na Andaluzia, que pertence ao Observatório Astronómico de Maiorca, em Espanha, descobriu o 2012 DA14. Desde aí que se estuda o seu movimento. Depois de se distanciar da Terra, o asteróide vai continuar a sua órbita, agora de 317 dias, mais próxima do Sol.

Só em 2046 é que o bólide voltará a ser digno de atenção pelas mesmas razões, quando a sua órbita coincidir com a da Terra e se aproximar de nós. Mesmo assim, vai ficar para lá da distância da Lua e não representa nenhum perigo. O que não quer dizer que não haja motivo de preocupação até lá. Afinal, a grande maioria dos objectos do tamanho do 2012 DA14 que podem circular perto da Terra e representar um potencial perigo são desconhecidos.

Optimismo histórico

"Psicologicamente, é bom haver estes pequenos sustos para termos consciência de que o possível impacto de um asteróide é um problema. E se temos tecnologia para tentar evitar e reduzir os efeitos de um impacto, é um absurdo não pensarmos nisso", diz Nuno Peixinho.

O asteróide 2012 DA14 é proveniente da cintura de asteróides que existe entre Marte e Júpiter. De vez em quando um asteróide salta desta órbita e dirige-se para o centro do sistema solar. Nesse momento, passa a ser um asteróide Apolo, pode cortar a órbita terrestre e ser um perigo potencial para a Terra.

Os Estados Unidos têm uma rede para detectar estes objectos que têm mais de um quilómetro de diâmetro, e que são capazes de gerar um grande evento de extinção, se colidirem com a Terra, como o que terá acontecido há 65 milhões de anos e provocou a extinção dos dinossauros.

Mas não há uma monitorização consistente dos asteróides mais pequenos, os que se embaterem podem ter um impacto regional significativo. Um impacto de um asteróide de 50 metros causaria uma cratera com 2,5 quilómetros de diâmetro e tudo, num raio de 25 quilómetros, seria arrasado. Um embate no deserto, não seria um grande problema, mas numa cidade era uma tragédia. "É uma questão de tempo. O ser humano inventou o optimismo histórico, mas o certo é que um asteróide vai bater. É uma questão de estarmos alerta."

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