A nova vacina contra o dengue produzida pela farmacêutica Sanofi Pasteur tem uma capacidade de imunização de apenas 30%, muito abaixo dos esperados 70%, mostra um artigo agora publicado na revista The Lancet. Mesmo assim, os investigadores defendem que estes resultados são um marco, já que provam ser possível o desenvolvimento de uma vacina.
O dengue é uma doença causada por um vírus transmitido aos humanos por picada de algumas espécies de mosquitos do género Aedes. O mosquito vive principalmente na região equatorial.
Em 1970, a doença era endémica em apenas nove países, hoje alastrou-se a 100. Cerca de 2,5 mil milhões de pessoas correm o risco de contrair esta doença que em 2010 atingiu 2,2 milhões de pessoas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.
Há quatro subtipos de vírus que causam o dengue, que tem um período de incubação de alguns dias e, nos casos mais graves, pode provocar hemorragias mortais, além das febres altas e dores nas articulações. Cerca de meio milhão de pessoas têm o dengue mais severo, a maioria são crianças e 2,5% acaba por morrer.
O artigo publicado agora é o resultado de um estudo de fase IIb que abarcou 4002 crianças na idade escolar com 4 a 11 anos, na região da Tailândia, um dos países onde o dengue é endémico. Um grupo de 2669 crianças foi dada a vacina ChimeriVax (CYD-TDV), em três doses, e as outras 1333 crianças receberam placebos.
Não houve diferença estatística significativa nos resultados. Houve 76 casos de dengue no grupo vacinado, 2,8% da população, e 58 casos no grupo de controlo, 4,4% dos casos. O que equivale a uma imunização de 30,2%. Esperava-se uma imunização de mais de 70%.
“Este resultado fez-me afundar na cadeira”, disse Scott Halstead, um conselheiro científico experiente, da Iniciativa para a Vacina do Dengue, um consórcio sem fins lucrativos que luta por uma vacina contra a doença. “Este resultado é muito desapontante e vai ter que se repensar muito e fazer mais experiências para compreender o que aconteceu. Não se pode acreditar muito que esta vacina vá reduzir de uma forma significativa a doença”, explicou o cientista que não está ligado ao estudo, citado pela Reuters.
Há mais de 70 anos que se tenta produzir uma vacina contra o dengue sem sucesso. Apesar do revés, os cientistas responsáveis pelo estudo mostram-se optimistas. “É a primeira demonstração que a vacina do dengue é possível, e isso é muito importante”, disse Nadia Tornieporth, citada pelo jornal norte-americano New York Times. A investigadora é uma das autoras do artigo e é uma das responsáveis da Sanofi Pasteur, em Pensilvânia, nos Estados Unidos.
A vacina foi feita para as quatro estirpes, mas só foi eficiente para três delas, em que conseguiu produzir uma imunidade com valores entre os 60% e os 90%. Mas a variedade em que obteve uma imunidade muito baixa foi justamente a do subtipo do vírus predominante na Tailândia. “Isto é um marco, mas necessitamos de esperar pelos resultado de dois grandes ensaios que estão em fase III, para testar a eficácia e compreender melhor a vacina”, explicou Jean Lang, citado pela Reuters. O especialista é responsável na Sanofi pelo desenvolvimento da vacina do dengue. A farmacêutica está à espera dos resultados de estudos que englobam 31.000 participantes na Ásia e na América Latina. De acordo com a Reuters, a empresa, antes destes resultados, esperava fazer vendas anuais com a vacina na ordem dos mil milhões de euros.
A vacina parece, até agora, não ter efeitos adversos. Se os próximos ensaios forem mais positivos, a vacina poderá estar à venda já em 2015. Muitos médicos ouvidos pelo New York Times admitem estar com baixas expectativas em relação à vacina.

Comentários