Plutão deve hoje deixar de ser planeta

Pôr ordem no sistema solar é tudo menos pacífico. Cerca de 2500 astrónomos estão reunidos em Praga e devem votar hoje uma definição do que é, afinal, um planeta, que poderá relegar Plutão para um estatuto de planeta de segunda, um anão gelado, como outros objectos da Cintura de Kuiper. Mas muitos afirmam que, à velocidade a que se conhecem novos objectos no espaço, é cedo de mais para estabelecer uma definição.

A União Astronómica Internacional toma hoje uma decisão histórica NASA (arquivo)

Não se pode dizer que a União Astronómica Internacional (IAU, na sigla em inglês) não se tenha esforçado para defender o estatuto de Plutão. Mas várias fontes indicavam ontem que a proposta que será votada hoje na assembleia da IAU, em Praga (República Checa), deverá contemplar um sistema solar com apenas oito planetas. Plutão deve ser despromovido para planeta anão, uma categoria intermédia de objectos espaciais que não têm força gravítica suficiente para se imporem sozinhos na sua órbita.

"O sistema solar terá oito planetas e pelo menos dois planetas anões", disse Junachi Watanabe, porta-voz da comissão de peritos da IAU para decidir a reforma da organização do sistema solar, citado pela agência EFE. Não há nenhuma proposta ainda por escrito (só deve ser conhecida esta manhã), mas no debate em Praga foi recebida com alívio a proposta de abandonar a definição apresentada na semana passada pela IAU, que fazia com que passassem a existir 12 planetas no sistema solar, dizia a revista francesa de astronomia Ciel & Espace.

Mas se toda esta polémica mostrou alguma coisa é que pode ser demasiado cedo para tomar decisões, pois os cientistas não sabem ainda dizer o que é um planeta.

Os planetas são um bom exemplo de como quanto mais se descobre, mais há a noção do pouco que se sabe. Em 1930, quando Plutão foi descoberto, nem se colocava a questão se seria um planeta. Mas agora Nuno Santos assegura que "é cedo de mais para se definir seja o que for, porque não há conhecimento suficiente para uma definição robusta".

A justificação deste debate é bastante simples: "Há uma grande vontade de chamar planeta a Plutão." Existe a vertente histórica, é certo, mas Plutão já é diferente dos outros planetas para os astrofísicos, tal como Ceres continuará a ser um asteróide, explica Nuno Santos.

Deste modo, a consequência da primeira proposta da IAU, de se chamar planeta a Ceres, a Xena e a Caronte, poderá levar à classificação como planetas de muitos outros objectos. "Isto sem que tenham o mesmo significado para os astrofísicos e para o público em geral."

A polémica não é nova. Há muito que se sabe que Plutão é um planeta diferente dos outros, gelado e muito pequeno, com cerca de seis vezes menos o diâmetro da Terra.

Xena deu novo fôlego ao debate

No ano passado, o astrónomo Mike Brown anunciou ter descoberto perto de Plutão outro objecto idêntico, mas que até é maior. Chamou-lhe UB313 e sugeriu que passasse a chamar-se Xena e fosse considerado o décimo planeta do sistema solar. Isto desencadeou a busca de uma definição do que é um planeta, retomando as interrogações sobre Plutão.

A IAU elaborou uma primeira proposta para votação, mas que entretanto suscitou uma contraproposta de astrónomos que prefeririam retirar Plutão da lista de planetas ou estabelecer uma nova forma de classificação. A IAU recuou e preparou uma proposta mais consensual.

A proposta inicial da União Astronómica dizia que um planeta é um objecto com massa suficiente para ter uma forma arredondada, que orbita uma estrela e não é um satélite de outro planeta. Ora, nesta definição cabem Xena, e também Caronte, que até agora é referido como um satélite de Plutão, além de Ceres, que tem sido considerado um asteróide entre Marte e Júpiter, mas que é arredondado. O problema, dizem os críticos, é que esta definição abre as portas à nomeação de muitos outros planetas no sistema solar.

Em causa estão, sobretudo, os objectos da Cintura de Kuiper, para lá de Neptuno, a cerca de 50 unidades astronómicas, o que significa dizer 50 vezes a distância da Terra ao Sol, que é de aproximadamente 150 milhões de quilómetros. É aí que vagueiam milhares de objectos que têm vindo a ser descobertos na última década, e os astrónomos acreditam que haverá muitos mais por descobrir.

O Xena, por exemplo, encontra-se aí, e é muito parecido com Plutão. A descoberta desses objectos transneptunianos veio trazer novos dados, tal como os planetas encontrados fora do sistema solar.

O primeiro foi o 51 Pegasi, que é idêntico a Júpiter, gigante e gasoso, e foi anunciado em Outubro de 1995 pelos astrónomos Michel Mayor e Didier Queloz, da Universidade de Genebra. Passados 11 anos, já se conhecem mais de 200 e a lista está sempre a ser actualizada.

"Depois de sabermos isto tudo, estar apenas a pôr a etiqueta de planeta a mais um ou dois objectos é irrelevante", considera Rui Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL).

Preferia "deixar tudo na mesma", diz. Optaria, mais tarde, por uma divisão dos planetas por classes. "Com a proposta [inicial] da IAU, não há razão para excluir outros que já foram descobertos." "Corremos o risco de passar a ter planetas novos todos os anos."

"Se Plutão fosse descoberto hoje, não seria planeta", acrescenta Nuno Santos, do OAL, que tem feito investigação na área dos planetas extra-solares. É um "caçador de planetas" que já participou na descoberta de dezenas de novos objectos, inclusive o primeiro planeta rochoso fora do sistema solar, encontrado em 2004, que orbita a estrela mu Arae, da constelação de Ara.

Os astrónomos já nem encaram Plutão como um planeta, observa. "É muito pequeno e tem uma órbita excêntrica." Além disso, adianta, em poucos anos serão descobertos mais planetas. "E estaremos sempre a renovar os manuais escolares."

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