No país da ciência, Crato seria Aziz

Com menos investimento diminuem os resultados. Dizer o contrário não resolve o problema.

A comparação pode parecer exagerada, mas ao ouvir as declarações de Nuno Crato no Parlamento a propósito da situação da ciência é quase impossível não pensar numa das situações mais caricatas da história mundial recente: Tareq Aziz, vice de Saddam, a garantir ao mundo que o regime iraquiano estava intocável e de boa saúde quando já toda a gente sabia (e via, em directo) os bombardeamentos americanos sobre Bagdad. Na ciência, o que se passou ontem foi, de certo modo, similar. Enquanto no debate público se avolumam vozes contra os cortes, umas mais agressivas e outras mais cautelosas, e na Universidade de Lisboa uma conferência organizada pela Fundação Manuel dos Santos juntava mais um punhado de vozes críticas ao coro de descontentes, o ministro da Educação e Ciência garantia no Parlamento que o Governo quer ciência “de grande qualidade”, que “o Governo não desinvestiu na ciência e continua a apostar na formação avançada” e que há um “programa de retenção dos melhores dos nossos cientistas e dos melhores investigadores internacionais.” Tareq Aziz, se fosse português e a ciência fosse um país, não diria melhor. A diferença, aqui, é que seria ele próprio a comandar os bombardeiros e a dar ordem de bombardeamento. Porque proceder como procede o Governo nesta área, desinvestindo claramente e sugerindo que isso é investir ainda mais, equivale a dizer que estamos mais ricos estando mais pobres, porque aprendemos a viver com a nossa pobreza. Não. Se o Governo quer, na verdade, sujeitar a ciência aos cortes anunciados, que afirme isso mesmo e não disfarce com piedosas intenções. Quem aguentou coisas tão graves também aguentará essa. Esqueça, nesse caso, é “a retenção dos melhores” e a “ciência de grande qualidade”, pois não basta desejá-la para ela acontecer. Se o investimento diminuir, os resultados também diminuirão. Dizer o contrário é, como fez Tareq Aziz, iludir sem nenhum proveito. 

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