A guerra é uma experiência extrema. Um soldado em combate está numa situação de tensão com a possibilidade de ser morto por um tiro, por uma mina, além de poder ser obrigado a matar. Os níveis de stress são altos e duradouros. Por isso, mesmo os soldados mais treinados, ao viverem alguns meses de guerra, sofrem alterações em regiões do cérebro importantes para a atenção e para a memória de curto prazo que podem ser permanentes, conclui um estudo publicado hoje na revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences.
Uma equipa holandesa, da Universidade de Amesterdão, analisou os efeitos da guerra na atenção e na memória a curto prazo e em duas regiões envolvidas nestas capacidades, que estão conectadas, o mesencéfalo e o córtex pré-frontal.
Porquê o interesse das regiões? "Quando se está em perigo, como numa guerra, é importante que o cérebro se adapte à situação e seja capaz de responder a momentos de perigo. Mas isso pode ter consequências negativas para o sistema nervoso", explicou Guido van Wingen, um dos autores do estudo, ao PÚBLICO. Uma dessas respostas é a produção de dopamina, um neurotransmissor muito importante para a ligação dos neurónios entre o mesencéfalo e o córtex pré-frontal. Quando a concentração desta molécula se altera no cérebro, como numa situação de stress, o bom funcionamento deste sistema pode ser posto em causa.
"Uma situação aguda de stress compromete a memória de curto prazo e a atenção, ao afectar o córtex pré-frontal, mas as consequências a longo prazo causadas pelo stress severo são desconhecidas", dizem os autores.
Para compreenderem estes efeitos, os cientistas analisaram estas duas regiões do cérebro e as capacidades de concentração e memória num grupo de 33 soldados saudáveis da NATO, antes de irem para a guerra no Afeganistão durante quatro meses. Depois, voltaram a analisar o grupo um mês e meio após o fim dos quatro meses e, finalmente, estudaram os soldados uma terceira vez, um ano e meio depois da saída do Afeganistão. Compararam este primeiro grupo com 26 soldados que nunca estiveram num campo de batalha.
Em cada uma das três sessões, os cientistas acompanharam os exercícios de memória com exames de ressonância magnética para analisar o mesencéfalo e o córtex pré-frontal.
Um mês e meio após a guerra, a equipa notou que o grupo de soldados que não esteve no Afeganistão tinha melhores resultados nos testes, influenciados pela experiência anterior. No grupo que foi à guerra, a primeira experiência não se revelou tão útil e melhoraram pouco os resultados. Os exames ao cérebro reflectiram essa diferença: no mesencéfalo, houve uma diminuição na coerência da orientação dos tecidos dos soldados que estiveram em combate. "O stress reduz a integridade estrutural do mesencéfalo e a sua actividade durante o processo cognitivo", dizem os autores.
Guido van Wingen argumenta que estas alterações trazem consequências para as pessoas que sofrem este tipo de stress durante o trabalho, ou durante processos de aprendizagem quando estão a estudar.
Ano e meio depois, os novos exames revelaram que a região do mesencéfalo que tinha sido estudada tinha recuperado. "Os problemas que eles tinham, desapareceram. O cérebro é muito plástico e pode restaurar-se", explica o cientista, acrescentando que os soldados desempenhavam os testes sem qualquer problema. No entanto, as ligações entre o mesencéfalo, que fica mais perto do início da medula espinal, e o córtex pré-frontal, que no cérebro fica mais perto da testa, continuavam comprometidas.
É a primeira vez que este fenómeno é observado, não se sabe se é permanente. Segundo van Wingen, estas ligações estão dependentes de vias longas de neurónios e "podem demorar mais tempo a restaurar".
Apesar de não haver nenhuma consequência prática desta alteração, admite que estes soldados podem estar mais susceptíveis a novas situações de stress. Mais: o grupo estudado foi altamente treinado e escolheu a profissão. À partida, é mais resistente ao stress. "Outras pessoas, como civis, serão muito mais vulneráveis a sofrer stress pós-traumático."

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