Investigadores descobrem químico que evita stress pós-traumático em ratinhos

Químico testado em ratinhos evitou comportamentos de stress nos roedores. Estudo publicado na revista Science Translational Medicine.

As experiência de guerra causam frequentemente stress pós-traumático Kambou Sia/AFP (arquivo)

As vivências de uma guerra têm o potencial de marcar qualquer um, mas muitos soldados e vítimas da guerra tornam-se doentes crónicos devido ao stress pós-traumático. Um estudo em ratinhos descobriu um químico que evita esta condição nos roedores, revela um artigo publicado nesta semana na revista Science Translational Medicine. A descoberta poderá ser usada para evitar esta síndrome em pessoas sujeitas a experiências traumáticas como cataclismos ou violência física.

O stress pós-traumático parece uma exacerbação da memória com que ficamos de situações que causaram sofrimento e medo. Tanto ratinhos como humanos conseguem associar sinais do ambiente, como uma explosão, a situações que no passado lhes causaram dor e sofrimento. Essa informação é útil para evitar perigos. Mas no stress pós-traumático há vários sintomas que se podem manter e condicionar a vida para sempre: depressão, explosões de raiva, dificuldade de dormir, de se concentrar, reviver essas situações, etc.

O composto encontrado pela equipa de cientistas chama-se SR-8993 e activa um dos vários receptores celulares dos opióides. São estes receptores, nas células nervosas, a que o ópio e os derivados como a morfina se ligam e conseguem assim produzir os seus efeitos. Numa investigação recente, descobriu-se que ao se aplicar morfina nas pessoas logo após um ferimento traumático, era possível diminuir os riscos de se sofrer de stress pós-traumático.

“À primeira vista, pode-se inferir que o principal mecanismo em que a morfina funciona é na redução do nível de dor, mas os nossos resultados levam-nos a pensar que a morfina pode afectar o processo da aprendizagem do medo”, explica Kerry Ressler, professor e investigador na Escola de Medicina da Universidade de Emory, Atlanta, Estados Unidos.

O investigador está interessado em perceber o que acontece na região da amígdala, a nível da expressão genética, durante as experiências traumáticas que os ratinhos foram sujeitos no laboratório. Esta região do cérebro está envolvida na regulação das respostas ao medo.

Os ratinhos expostos a situações de stress tornam-se ansiosos e podem ficar paralisados pelo medo, mesmo em situações em que não há nenhum sinal de perigo. Os cientistas notaram numa molécula que é um receptor celular da família dos receptores de opióides, mas que não é sensível ao ópio e aos derivados, chamada oprl1. A expressão do gene deste receptor é desligada quando os ratinhos aprendem a ter medo de um som associado a um choque eléctrico. Mas nas sucessivas vezes que experimentam este stress, o gene permanece ligado.

Quando a equipa injectou nos ratinhos o composto SR-8993, que activa o gene Oprl1, logo após estes terem sido expostos a uma experiência de stress, apesar de continuarem a aprender a terem medo do som, os ratinhos não apresentavam tantos sinais de stress pós-traumático. A memória do medo não durava tanto e os ratinhos não “congelavam” com tanta frequência mal ouviam o som, mesmo quando a experiência traumática era repetida.

“Pensamos que o SR-8993 está a ajudar a promover um processo natural que ocorre depois de uma experiência traumática, prevenido a aprendizagem do medo de se tornar excessiva e generalizada”, explica Ressler. “O nosso modelo defende que no stress pós-traumático, o sistema Oprl1 serve como um travão para a aprendizagem do medo, mas este deixa de funcionar quando se tem uma experiência traumática se já houver um primeiro trauma.”

Este químico poderá ser uma via para se encontrar um composto que previna esta síndrome em humanos. Em teoria, esse composto teria de ser administrado poucas horas depois do trauma, defende o cientista.

Comentários

Comentar

Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários.

Caracteres restantes:

Nos Blogues