Um grupo de 17 cientistas de topo enviou uma carta a conselheiros de Barack Obama para se investigar as questões éticas da criação de estirpes de vírus da gripe das aves transmissíveis entre humanos. Os investigadores temem que esta nova linha de pesquisa leve à produção de outros agentes patogénicos mais perigosos para a humanidade do que os que surgem na natureza.
“A libertação acidental de vírus da gripe H5N1, gerados no laboratório para poderem ser transmitidos entre pessoas, tem o potencial de causar uma pandemia global de proporções épicas que iria, por comparação, diminuir a gravidade da pandemia da gripe espanhola que em 1918 matou mais de 50 milhões de pessoas”, lê-se na carta enviada na semana passada e citada pelo jornal The Independent, que conta com assinaturas de um galardoado com o Prémio Nobel.
A discussão começou em 2011, quando a equipa de Ron Fouchier, do Centro Médico Erasmus em Roterdão, na Holanda, e Yoshihiro Kawaoka, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, anunciaram ter conseguido provocar mutações no vírus da gripe aviária H5N1 que o tornavam, em teoria, capaz de ser transmitido entre humanos.
As descobertas, que só foram publicadas em artigos já em 2012, levaram à criação de uma moratória voluntária na investigação assinada por cerca de 40 investigadores. O objectivo da moratória era discutir os riscos destas inovações. O vírus H5N1 está associado a uma mortalidade de 60% nas raras vezes em que saltou das aves para os humanos. Os investigadores destas equipas defendem que na natureza já se observam algumas mutações que podem tornar o vírus transmissível entre humanos, e as suas investigações poderão ajudar a preparar a humanidade para esse cenário.
Os mesmos investigadores anunciaram o fim da moratória em Janeiro deste ano, argumentando que a discussão já tinha sido suficiente. Mas os signatários querem reacender a discussão junto da Comissão Presidencial dos Estados Unidos para o Estudo das Questões Bioéticas, argumentando que a mortalidade causada pelo H5N1 põe este vírus numa categoria de perigo única, e que torná-lo transmissível em laboratório equivale a arriscar uma pandemia devastadora.
“A maioria [dos biólogos] considera que a criação em laboratório de um agente patogénico mais letal do que o que existe na natureza é ética e moralmente errado. A maioria é da opinião de que não existe justificação científica que pese mais do que os problemas éticos e morais”, lê-se no documento. A carta foi organizada pela Fundação para a Investigação de Vacinas, uma organização privada com sede em Washington. Entre os signatários estão Richard Roberts, que ganhou o Prémio Nobel da Medicina em 1993 pelo seu trabalho pioneiro na genética, Robert May, que foi o cientista conselheiro do gabinete do primeiro-ministro do Reino Unido entre 1995 e 2000, e Marc Lipsitch, um especialista em doenças transmissíveis da Universidade de Harvard.
“As investigações no H5N1 representam, sem dúvida, o primeiro de muitos estudos que envolvem outros agentes patogénicos perigosos. Têm estado a ser feitos na China estudos de ganho de função [experiências que provocam mutações para que os vírus tenham novas capacidades] com o H5N1. Na Holanda, uma equipa está a expandir os estudos para incluir os vírus da gripe H7N7 e anunciou planos para fazer investigações semelhantes com o coronavírus SARS”, dizem os cientistas, alertando que há poucos dias souberam que uma equipa na Alemanha estava e realizar experiências para perceber o que seria necessário para que o vírus que causa a esgana nos cães fosse transmitido aos humanos.

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