Células estaminais: peritos portugueses entusiasmados com "revolução em medicina"

EPA (arquivo)

O anúncio da descoberta de uma técnica que permite cultivar células estaminais humanas sem destruir os embriões, feito ontem pela empresa norte-americana Advanced Cell Technology, constitui "uma revolução em medicina", considera o geneticista e investigador português Mário Sousa. O professor de Bioética Rui Nunes afirma também que "as reservas [éticas] caem totalmente por terra".

Em declarações à rádio TSF, Mário Sousa afirma que esta nova técnica "é uma novidade extraordinária".

"Até hoje sempre conseguimos remover células dos embriões para diagnóstico, mas em termos de experiências em animais o máximo que conseguíamos era duplicar um embrião a partir de quatro dessas células. De uma, conseguir proliferá-las a ponto de dar origem a milhões de células estaminais, é uma revolução médica", enfatiza o investigador do Instituto de Ciências Médicas Abel Salazar, no Porto

Reservas éticas "caem totalmente"

O professor de Bioética da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Rui Nunes, que também integra o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, é taxativo quanto ao fim das reservas do foro ético que condicionavam até aqui a investigação das células estaminais obtidas a partir de embriões humanos.

"Eu creio que essas reservas caem totalmente por terra, porque mesmo para aqueles que entendem que o embrião é uma nova vida humana, se se puder recolher uma célula mas preservar totalmente a sua integridade física, deixa de existir qualquer tipo de argumentação ética ou moral que impeça a utilização e o desenvolvimento dessa técnica", explica.

Para o perito, "esta descoberta vem responder cabalmente àquilo que foi a preocupação defendida pela maioria dos membros do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida".

Assim, quando a metodologia da nova técnica puder ser analisada e reproduzida - e se se confirmar a descoberta da equipa de Robert Lanza, da empresa Advanced Cell Technology -, as células estaminais poderão ser cultivadas e o embrião não será destruído, podendo continuar a desenvolver-se até ao termo da gravidez se for implantado no útero de uma mulher.

Ética "não deve ser utilizada para fins moralistas"

Já o geneticista Carolino Monteiro também se congratula com a experiência norte-americana, que classifica como "uma descoberta importante", mas rejeita um entusiasmo excessivo.

Carolino Monteiro considera que o mais importante dos feitos noticiados pela revista "Nature" é a consequência ética. "A ética é fundamental e tem que acompanhar a evolução da ciência, mas não deve ser utilizada para fins moralistas", afirma, em declarações à Lusa.

A descoberta de uma técnica para fazer investigação sem destruir o embrião é importante porque "esta área é a única que terá as células mais adequadas para a terapêutica de doenças sem outro modo de cura, como as neurodegenerativas, o cancro ou a infecção por HIV", destaca.

O que são células estaminais

Há três tipos de células estaminais, segundo a sua origem: embrionárias, de cordão umbilical e adultas. A investigação das células estaminais embrionárias é polémica, uma vez que não podiam, até aqui, ser obtidas sem a destruição dos embriões humanos. Menos polémica é a utilização de células estaminais adultas, do cordão umbilical e as existentes em laboratório.

A clonagem terapêutica pretende retirar dos embriões clonados as células estaminais. Pensa-se que estas células poderão ser usadas para reparar tecidos e órgãos doentes, como nos casos das doenças de Alzheimer, de Parkinson, diabetes ou outras patologias que impliquem a degeneração dos tecidos.

As células estaminais embrionárias (que ainda não atingiram a sua função definitiva) são provenientes de embriões criados para fecundação in vitro.

Mais de 60 academias científicas de todo o mundo são a favor da clonagem terapêutica. As Nações Unidas, pressionadas por um grupo de países liderado pelos EUA e nos quais Portugal se inclui, querem a proibição de qualquer forma de clonagem, mas ainda não tomaram uma posição sobre a clonagem terapêutica, acontecendo o mesmo com os ministros da Ciência da União Europeia.

Em Portugal, mais de mil casais portugueses já optaram por congelar células estaminais dos filhos para que no futuro possam ser utilizadas no tratamento de eventuais doenças hoje tidas como incuráveis.

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