Bolseiros de investigação protestaram e apelam partidos para discutirem políticas da Ciência

O ministro Mariano Gago reuniu-se várias vezes com os bolseiros para discutir os seus problemas, mas dos encontros não saíram soluções concretas. Pedro Cunha (arquivo)

Cerca de cem bolseiros de investigação científica concentraram-se hoje à tarde frente à Assembleia da República em protesto contra a sua precariedade profissional, apelando aos partidos para que discutam na campanha eleitoral as políticas da Ciência.

Sob o lema “investir em ciência é investir em quem a faz”, os investigadores seguravam uma faixa de cerca de 20 metros onde colaram artigos publicados em revistas internacionais, onde se podia ler também “produzimos ciência” e “queremos emprego científico”.

“Consideramos que este é o momento para participarmos na campanha eleitoral. Queremos que os partidos discutam durante a campanha a questão dos bolseiros e a política científica, que sentimos estar a ser pouco discutida”, afirmou aos jornalistas André Levy, da direcção da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC).

Segundo o responsável, a precariedade, a ausência de acesso à segurança social, a falta de perspectivas futuras de emprego científico e a não actualização dos montantes das bolsas, desde 2002, “com uma perda de poder de compra de mais de 20 por cento”, são os principais motivos da luta dos bolseiros.

“O próprio ministério [da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior] reuniu connosco várias vezes, mais intensamente nos últimos meses, mas isso não se traduziu em soluções concretas”, acusou.

Francisco Esteves, de 29 anos, é bolseiro de doutoramento em Ciências Médicas, na Universidade Nova de Lisboa, recebendo mensalmente 980 euros.

“Neste momento, o verdadeiro trabalho do bolseiro não é minimamente reconhecido, nem recompensado. É complicado pagar a casa e as despesas fixas. Além disso, quando a bolsa acabar, não vou ter direito ao subsídio de desemprego”, lamentou.

Por isso, juntou-se ao protesto para exigir a melhoria de certas condições como uma maior protecção na segurança social e um contrato com todas as regalias que isso implica.

Já Lídia Maropo, de 35 anos, deixou de trabalhar há três anos para se dedicar a um doutoramento na área da Comunicação. Queixa-se da falta de perspectivas de trabalho de investigação com contrato quando terminar a sua bolsa.

“O Estado está a promover um trabalho precário. Pega em mão de obra qualificada, que investiu muitos anos na carreira, sem lhe dar quaisquer garantias. Não há direitos como há para um trabalhador normal”, afirmou.

No local, estiveram presentes representantes dos grupos parlamentares do PCP e de Os Verdes.

Da parte dos comunistas, o deputado Miguel Tiago acusou o Governo de permitir o alargamento do recurso a bolseiros para cobrir as necessidades permanentes do sistema científico e técnico e de nada ter feito para resolver a situação dos investigadores.

“Na prática, os bolseiros não são considerados trabalhadores. São mão-de-obra altamente qualificada e explorada, sem quaisquer direitos”, criticou.

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