No Bornéu

Biólogos surpreendidos com morcegos que dormem dentro de plantas carnívoras

As plantas proporcionam abrigos para os morcegos Foto: M. Struebig/Universiti Brunei Darussalam/Reuters

No Bornéu, pequenos morcegos dormem dentro de plantas carnívoras “em troca” dos nutrientes que lá deixam através das suas fezes e urina, segundo um estudo publicado na “Biology Letters”.

Ulmar Grafe, do Departamento de Biologia da Universidade do Bornéu e principal autor do estudo, admitiu que a relação entre estes morcegos lanudos da espécie Kerivoula hardwickii e a planta carnívora da espécie Nepenthes rafflesiana elongata foi uma descoberta “totalmente inesperada”.

“Existem muitos mutualismos [interacções entre duas espécies que se beneficiam reciprocamente] animal-planta mas, neste caso, é o animal que dá um nutriente à planta. Normalmente é ao contrário”, explicou à Reuters.

O estudo começou quando os investigadores procuraram saber como é que a planta – que pode crescer até aos dez metros e que tem recipientes de 25 centímetros – conseguia obter o nitrogénio necessário nas florestas tropicais do Bornéu, pobres em nutrientes. Além disso, estudos anteriores revelaram que esta planta captura sete vezes menos insectos do que outras carnívoras no Bornéu.

A equipa de Grafe foi surpreendida ao descobrir que uma espécie de morcego, que pesa cerca de quatro gramas, escolhe de forma consistente aquelas plantas para dormir durante o dia, em detrimento de outras alternativas de locais de repouso. À noite sai à caça de insectos. Em vez de obter o nitrogénio consumindo os morcegos, as plantas obtêm-no através das fezes e urina que estes mamíferos lá deixam.

Para chegar a esta conclusão, de 14 de Junho a 30 de Julho de 2009, os investigadores monitorizaram mais de 400 recipientes de plantas carnívoras e fixaram transmissores minúsculos nos morcegos. Estes dispositivos eram temporários e caíram passados entre três a doze dias.

“O recipiente das plantas carnívoras é um local de repouso muito bom para eles”, comentou Grafe. Na verdade, “os morcegos dependem dos abrigos para sobreviver, reproduzir-se e proteger-se dos seus predadores”, salienta o estudo. Aquele “é um local seco, que os protege da chuva e da radiação solar, e onde não existem parasitas que lhes sugam o sangue, ao contrário do que acontece em outras cavidades”, explicou.

De acordo com o estudo, “outras espécies de morcegos utilizam outros locais de descanso durante o dia (...) mas não se conhece nenhuma que escolha as plantas carnívoras”.

Teoricamente, há algum perigo para o morcego se este cair no fluído digestivo no fundo do recipiente da planta e que esta utiliza para capturar insectos. Mas a planta adaptou-se para evitar este risco, nomeadamente mantendo uma quantidade mais reduzida de fluído digestivo em relação a outras espécies.

“Existem tantas extinções de animais e redução de populações que isto sublinha a importância de salvarmos todos os indivíduos e cada criatura que vivem nas florestas do Bornéu”, salientou.

Jorge Palmeirim, do Departamento de Biologia Animal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, especialista em morcegos, considera que esta é uma "situação invulgar" e "muito interessante". "Esta descoberta sugere que a planta alterou a sua morfologia de forma a ter a cavidade mais apropriada para os morcegos", comentou ao PÚBLICO. E isso não aconteceu de forma casual; antes se deveu a um processo evolutivo. "Este caso é bem diferente das espécies de morcegos que se abrigam nas folhas enroladas das bananeiras", por exemplo.

O biólogo lembrou outros casos de mutualismos, nas ilhas do Pacífico. "Nesta região, os morcegos são quase os únicos dispersores das sementes das árvores", garantindo a sobrevivência de todo o ecossistema. É um mutualismo "porque os morcegos se alimentam dos seus frutos e néctar, ao mesmo tempo que dispersam as sementes".

Notícia actualizada às 16h21.

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